João Ubaldo Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

Sim, férias, como tudo mais, acabam. Chegou a hora das minhas e sou obrigado a reconhecer que não estou muito animado. Deve ser a radioatividade de Itaparica, que me pegou de cheio assim que cheguei lá. Foi feio mesmo, desta vez. Quando olhei para a casa, com suas novas grades protegendo todas as janelas, nem tive ânimo para apreciá-las e comemorar o fato de que finalmente ingressamos no Brasil moderno e as casas da ilha adotam celeremente o Brazilian look, já conhecido no mundo inteiro, ou seja, todos atrás de grades, exceto os que merecem.Se eu não fosse itaparicano, teria procurado um médico. Vergonha mate-me, mas, já no segundo dia, depois de almoçar uma moquequinha de ostra no justamente afamado Restaurante do Negão, pensei seriamente em pagar para ser carregado até em casa, que fica as uns quase insuperáveis quatrocentos ou quinhentos metros. Venci com grande dificuldade os tentáculos da radioatividade e consegui, não sei como, chegar. E aí acho que devo ter me credenciado para entrar nos anais da Medicina, porque, ao chegar, me acometeu uma embaraçosa preguiça de ir dormir, apesar do sono em que estava. Graças a Deus, tenho os amigos certos nos lugares certos e Toinho Sabacu, convocado para dar um adjutório, chegou, me viu e abriu um sorriso.- Ah, só de olhar já sei que ele não tem nada, vaso ruim não quebra. Isso é a radioatividade, não tem problema. É que deve ter batido na fraqueza dele. Com uma ajudazinha, ele consegue ir dormir. O pior que pode acontecer é ele ficar como Vavá Major.- Que é que tem Vavá Major?- Ah, ele estava na barraca dele no Mercado, sentindo a moleza da radioatividade, que nem com Biotônico passava, e disse: "Oquêi, você venceu!" Aí fechou a barraca, foi para casa e nunca mais fez nada. Só fica sentado no batente da igreja do Alto, olhando a paisagem, e não faz nada, muito mal responde a um ou outro bom-dia e parece que só nisso já fica meio cansado. O consolo nessas horas é que um sujeito bem-casado não tem medo da radioatividade. A mulher - até nisso ela dá sorte - não pega radioatividade e aí não fica impedida de trabalhar, fazer o serviço do marido, o serviço de casa, essas coisas. Veja lá em casa. Eu faço o que posso, mas, se não fosse Floraci, acho que aquela casa já tinha até caído. Ajudem a botar ele na cama, o bicho não se aguenta nem sentado, coitado. Pronto, amanhã ele acorda, come cuscuz, toma mingau, deita na rede e dorme novamente, tudo dentro da normalidade.Como de fato. Até minha ida à principal praia de minha infância (duzentos metros lá de casa, um quinto de quilômetro, é duro e não tem táxi na cidade) foi adiada para o próximo ano. E talvez a radioatividade tenha me pegado de uma forma semelhante à de Vavá, mas o fato é que enfrentei grande dificuldade em sentar-me aqui para trabalhar. Ler jornais, assistir a noticiários de televisão e recuperar o ritmo de jogo, tudo isso me pareceu uma tarefa impossível de terminar, ou até mesmo de encetar.Felizmente, certos acontecimentos despertam a gente. Como, por exemplo, o curioso fato de que agora os Estados Unidos devem nacionalizar bancos. Talvez o pessoal mais moço não compreenda a enormidade desse fato. Se, algum tempo atrás, alguém dissesse que isso viria a acontecer, o mínimo que lhe ia acontecer era ser chamado de comunista agente de Moscou ou inocente útil enganado e declarado persona no grata pelo governo americano. Se dissesse numa faculdade de Economia ou diante de um analista ou consultor financeiro, seria posto para fora debaixo de vaias. Se dissesse a um dirigente de conglomerados financeiros, ia matá-lo de rir.No entanto, mostrando mais uma vez como este mundo dá muitas voltas e quanta confiança se pode ter na palavra dos entendidos, tudo indica que vão nacionalizar. Claro, o pessoal da grana não perde nada e quem paga é o contribuinte, da mesma forma que aqui. O governo americano adquire controle de um conglomerado, vende as partes boas, fica com as partes podres e liquida a instituição com prejuízo, tudo pago pelo famoso contribuinte. Portanto, não há razão para desânimo, muitas outras coisas curiosas estão para acontecer.E estão acontecendo. Foi animador assistir ao carnaval pela televisão, notadamente à de certa forma surpreendente participação do Primeiro Casal. Liguei a televisão pouco antes da hora em que, num gesto que deverá fazer História e ser imitado por reis, rainhas, presidentes e primeiros-ministros em todo o mundo, o presidente jogou camisinhas para o povo (e não deixou, é interessante, de botar umas duas no próprio bolso). Os tempos mudam e, na era Lula, os versos bendizem aquele que semeia camisinhas e não livros. E, na linguagem também consagrada pelo uso presidencial, abrem-se novos modelos de diálogo entre governantes.- Presidente, tão núsfu!- Eu avisei!- Não, o senhor não avisou.- Avisei, sim! Vocês vivem falando que eu sou grosso, mal-educado, não sei o quê. E aí, quando eu uso uma forma sutil de falar, reclamam! Assim também é fósforo! O que é que você acha que eu estava querendo comunicar, naquela hora? Não sacou, não?- Não, senhor.- É, depois vá me querer provar que diploma vale alguma coisa. Claro que eu estava dizendo "vão sífu, vão sífu, macacada!" E não somente avisei como distribuí camisinhas - até onde a má vontade levará vocês? ''Após uma moqueca de ostra, pensei seriamente em pagar para ser carregado até em casa''''Amanhã ele acorda, come cuscuz, toma mingau, deita na rede e dorme de novo, tudo dentro do normal''

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