Realismo mágico

Viajando por várias décadas, os indicados ao Oscar de melhor figurino têm em comum a reconstrução realista de épocas distintas, dando suporte às interpretações e ajudando a compor quadros em que o brilho do cinema vive mais uma vez.Milk, outro indicado, tem uma característica similar ao filme de Sam Mendes: há muito mais ação interna do que externa. Sean Penn é um exemplo de organicidade e imersão total em sua personagem, e a sua abordagem do figurino é feita da mesma forma. Não é um filme fácil, e há momentos de brilhante composição cênica que quase passam despercebidos dentro do todo.Danny Glicker - ganhador do Costume Design Guild Awards por Transamérica, em 2005 - realizou uma pesquisa histórica e escolheu muitas peças originalmente usadas pelas personagens. Danny Nicoletta, que trabalhou na loja de fotografia de Harvey Milk, mostrava as fotos e como cada um se vestia, contando que, nos anos 1970, Milk usava ternos de segunda mão e que seus sapatos eram sempre furados. Imagina-se que um discreto terno cinza não seria usado por um militante homossexual convicto, porém essa escolha é uma representação real do terno - hoje no arquivo de São Francisco, com seus buracos de bala e marcas de sangue - usado por Milk no momento de sua morte. O compromisso assumido por Glicker foi com a autenticidade do filme.O trabalho é feito em oposição a tudo o que se convencionou em filmes com uma temática tão evidente. Há figurinos de drag queens, de gays e diversos outros gêneros da comunidade de São Francisco, mas não há figurino que se destaque ou se sobreponha. O mais incrível é que a ação acontece nos anos 70, onde qualquer roupa já chama a atenção por si só. Uma seqüência notável é o cortejo fúnebre silencioso. Há uma torcida organizada para que Milk ganhe a estatueta de melhor figurino.O Curioso Caso de Benjamin ButtonO Curioso Caso de Benjamin Button é um exemplo de perfeita integração do figurino com o todo. Faz pensar em um antigo conceito, este também teatral, de caracterização, quando o termo não era usado para significar a combinação de roupas com sapatos e perucas. Também não tem a ver com visagismo, versão mais contemporânea da mesma abordagem superficial, que dispensa a elaboração da personagem como um todo. A propósito, é quase certo que este filme leve os prêmios de melhor maquiagem e efeitos visuais na noite de hoje.Em uma história que vai de 1919 a 2005, a figurinista Jacqueline West declara que "o desafio era manter a integridade em tantas épocas, tantas décadas e tantos personagens que deviam evoluir, porém mantendo a essência interna". Indicada para vários prêmios, já ganhou o Las Vegas Film Critics Society Awards com os figurinos de O Curioso Caso de Benjamin Button.Vale a pena ainda falar da personagem da atriz Cate Blanchett, que é composta por detalhes tão marcantes e significativos, de uma delicadeza exemplar, em trajes trabalhados para que se sinta saudade de uma coisa que não se sabe exatamente o que é - e que talvez seja melhor não descobrir. Uma saudade que está no figurino das negras e dos idosos do asilo, de onde Button parte e para onde seu grande amor segue.Depois de anos, dá-se o reencontro: Daisy dança com um vestido vermelho, particularmente significativo, escolhido para a cena pela própria atriz. A nudez de ambos, mais tarde, é emocionante, constituindo figurino de beleza plástica incomum.AustráliaA equipe australiana de Moulin Rouge (2002) volta à cena, porém desta vez será uma surpresa se a figurinista Catherine Martin repetir o sucesso na premiação. A indicação de Austrália para o Oscar de melhor figurino foi inesperada, já que a expectativa era por A Troca, com os trajes dos anos 1920, de Deborah Hopper para o filme de Clint Eastwood, com Angelina Jolie. Catherine queria ser estilista quando adolescente. Esposa do diretor Baz Luhrmann, colega de classe desde o curso no Instituto Nacional de Artes Dramáticas, o casal australiano é amigo íntimo de Nicole Kidman. Hoje, além de trabalhar como figurinista e diretora de arte, também possui uma linha de objetos de decoração. Talvez aí se revele sua relação com a moda, expressa nos calçados - todos desenhados por Ferragamo, que reproduziu dois exemplares para venda em edição limitada - ou nas peças Prada de Lady Ashley. Em entrevista à estilista Donna Karan, Catherine revela saber que precisa da inspiração da moda: "Não importa como abstrair o figurino. Ele deve ser composto de roupas para uma personagem. Sim, eu acho que os mundos da moda e do figurino constantemente se alimentam."O que acontece em Austrália é que Luhrmann tinha claro que desejava realizar "um grande romance histórico". A figurinista pesquisou fotos da época, a influência asiática na moda da cidade de Darwin, que chapéus usavam, os cintos inspirados nos Hermes dos anos 1930... para criar os 2 mil figurinos do filme. E definiu como seria a transformação da aristocrata depois que ela perde suas roupas inglesas, logo quando chega à cidade. "Eu sempre tento me dirigir para o que o diretor quer... O que interessa é satisfazer a história e todo o aparato que ela necessita e que apresenta para você." Mas acontece que o figurino transforma Kidman em uma boneca de cera e as ambientações se sobrepõem, muitas vezes, até ao próprio enredo.Há rumores de que Catherine coreografou, ao lado do marido, a abertura musical que terá o ator Hugh Jackman como atração na noite do Oscar. Então, veremos qual será o figurino do mestre-de-cerimônias deste Oscar, que promete causar sensação, como no Tony Awards, em 2004, com o número de The Boy From Oz. Foi Apenas um SonhoTambém protagonizado por dois jovens artistas, estrelas do megassucesso e vencedores do Oscar de melhor figurino Titanic (1998), Foi Apenas um Sonho é das obras mais bem acabadas em termos de figurinos e direção de arte deste ano. Sam Mendes, diretor de Beleza Americana (1999), volta ao tema do sonho americano, que definitivamente não parece chegar a bom termo nas obras do diretor. O casal Wheeler - Leonardo di Caprio e Kate Winslet - decide se mudar para os subúrbios em busca da felicidade e do sonho americano. A função - plenamente atingida - de seus trajes é mostrar como apesar de tudo desmoronar, às vezes lentamente, por vezes precipitadamente, a aparência exterior está sempre impecável: a arquitetura da época, o impacto dos automóveis ou elementos cênicos, nada é estritamente decorativo... Roupas passadas, ajustadas, batons em dia e todo o universo colapsando ao redor. O figurinista Albert Wolsky, em sua sétima indicação (ano passado concorreu com Across the Universe) - e com a reputação de ser um dos nomes mais respeitados e talentosos na área, tendo recebido, em 1998, o prêmio especial do Costume Designers Guild pela carreira - reforça a imagem do uso dos chapéus pelos homens no início da década de 1950 e transforma em memorável a cena da descida do trem em Nova York. "Quando eu recrio uma época, tento encontrar algo que reforce o período. Acentuando-o, exagerando, chega-se a uma forte sensação do período."Kate Winslet, na cena do flashback, usa um vestido preto, cabelo comprido, mais livre e expressiva na sua alma de artista. Depois, seu figurino torna-se o de uma dona de casa. Porém, sempre levemente diferente: mais justo e brilhante, de modo a ser sempre percebida. Aqui também há um vestido branco, como em A Duquesa, e usado de forma magistral por Mendes para acentuar o ato típico de uma Medeia contemporânea. A DuquesaNão é pela magia do bruxo Harry Potter, vestido pelo figurinista Michael O''Connor em Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), que o grande favorito a ganhador de melhor figurino da noite de hoje é o filme A Duquesa, vencedor dos prêmios BAFTA (inglês), Satellite (da Imprensa Internacional) e o Costume Designer Guild Award (da Associação dos figurinistas) na categoria. Em sua primeira indicação ao Oscar, Michael O''Connor traz para as telas sua enorme experiência em teatro e a fama de ser reconhecido detalhista e especialista em reconstruções. E comprova que os ingleses são excelentes - talvez os melhores - na arte da pesquisa histórica em figurinos.Os trajes de A Duquesa se sobrepõem ao filme e, talvez por isso mesmo, ganhem a estatueta. O drama tem tudo que agrada ao Oscar: a reconstrução ultrarrealista, a perfeição temática, a representação da nobreza e figurinos históricos, na melhor linha "figurino de época". Essa combinação temática ocupa três quartos dos indicados nos últimos anos e une diversos premiados do passado: Elizabeth (2008), Maria Antonieta (2007), Shakespeare Apaixonado (1999)...Aliados a uma direção de arte primorosa, que também concorre ao Oscar, os figurinos de A Duquesa trazem em si um significado que remonta às tradições teatrais mais antigas, no que se refere à codificação de cores. Assim, o branco usado pela jovem Georgiana Spencer ao saber que vai se casar com um duque - e as possibilidades que isso representa em uma sociedade como a inglesa do século 18 - é reforçado com o branco das ovelhas que pastam ao fundo da cena. Como uma espécie de vítima sacrificial, Georgiana aparecerá em plenitude nos salões ingleses, já envolvida pelo mundo das paixões e inspirada pelo guarda-roupa e moda franceses, em um vestido vermelho com uma peruca de quase um metro de altura.As reconstruções, capazes de serem aprovadas pelos mais rigorosos pesquisadores , atingem o nível da perfeição na reprodução dos espartilhos, roupas íntimas, lenços, trajes infantis e penteados. Keira Knightley - que ano passado causou frisson entre fashionistas com o que foi chamado de novo glamour hollywoodiano com o vestido de seda verde-esmeralda de Desejo e Reparação - declarou que os espartilhos apertados a ajudavam fisicamente a controlar certas emoções, forçando-a a permanecer na sua personagem. Ponto para o figurinista que oferece, por meio do seu trabalho, suporte para a interpretação dos atores.São tantos os detalhes e curiosidades que fica perceptível a criação do figurinista. Merece ser revista a cena da primeira noite entre o casal: a reconstrução é tão bem feita que a cauda do vestido é costurada na estrutura do traje. O duque toma a tesoura da mão da criada, dispensa-a e, de maneira muito pragmática, rompe, ele mesmo, os fios da costura, despindo a personagem (que mostra as marcas da opressão, físicas e metafóricas, no próprio corpo). A impossibilidade da concretização do amor verdadeiro vai sendo exposta no figurino, que evolui a cada cena, marcando também a trajetória social e política desta mulher. Detalhe: a emancipação feminina nem sonhava em aparecer, mas as roupas e cabelos das mulheres já eram "suas únicas formas de expressão", como a própria Duquesa declara em cena.O favoritismo de A Duquesa é fortalecido pelos outros concorrentes, que não possuem o mesmo apelo fácil neste quesito.

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