Realidade social no banco escolar

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, fala de questões essenciais, como ensino e liberdade

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2009 | 00h00

Laurent Cantet está de volta ao Brasil. No domingo, o diretor de Entre os Muros da Escola chegou ao Rio. Reviu amigos, passeou. À noite, conversou pelo telefone com o repórter do Estado. Hoje, ele chega a São Paulo, onde seu filme terá pré-estreia amanhã, devendo entrar em cartaz na sexta, dia 13. Entre os Muros da Escola recebeu a Palma de Ouro em Cannes, no ano passado. Foi o indicado da França para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Na mesma semana, Cantet sofreu duas derrotas - perdeu o Oscar e também o César, o Oscar do cinema francês. Cantet não se abalou por nenhuma das duas. "Os votantes do César devem ter avaliado que não valia mais a pena investir num filme que já fora lançado nos cinemas com sucesso. Era melhor imprimir a marca do César a outro filme que pudesse se beneficiar disso." Quanto ao Oscar, ele admite sua surpresa - "Estava certo de que Bashir levaria o prêmio." Bashir, mais exatamente Valsa com Bashir, o documentário de animação do israelense Ari Folman, concorrera com Entre les Murs à Palma de Ouro de 2008. Quem levou o Oscar de filme estrangeiro foi o japonês Departures, de Yojiro Takita.Cantet não se esquece da emoção que foi levantar a Palma de Ouro, cercado por toda aquela garotada que compõe a turma do professor François Bégaudeau. "Foi a primeira Palma da França em mais de 20 anos. Premiou o trabalho de uma equipe unida, mas, acima de tudo, eu acho que foi emocionante receber este prêmio do júri presidido por Sean Penn, a quem admiro muito, por suas escolas artísticas e políticas." Passou-se quase um ano e Cantet tem feito o ?tour de monde?, acompanhando o lançamento de Entre les Murs, rebatizado como Entre os Muros da Escola, em diferentes países. Agora mesmo, depois do Brasil, segue para a Argentina. Ele ainda não teve tempo de pensar no que será o próximo filme. "Não consigo pensar num projeto enquanto não me desligo do anterior. Ainda estou muito ligado a Entre les Murs. O filme trata da escola, e da sala de aula, como espelho da realidade social. Em toda parte, tem promovido debates que dizem respeito a questões essenciais. O ensino, a liberdade dos jovens, a autoridade e responsabilidade dos professores, a comunidade. Não encontrei, em nenhum lugar do mundo, plateias que não fossem sensíveis a esses temas. Espero que no Brasil não seja diferente."O Brasil o atrai, particularmente. "Não vou dizer que me sinto à vontade no Rio, mas a cidade tem uma energia e ao mesmo tempo expõe desigualdades tão fortes, a favela e o mundo dos ricos, que me estimula a pensar, a criar. Acho que poderia fazer um filme disso aqui." Na verdade, Cantet já fez Em Direção ao Sul, com Charlotte Rampling, um drama sobre as relações Norte/Sul, sobre o turismo sexual - e foi, justamente, o filme anterior que o trouxera ao Festival do Rio, onde já se encontrara com o repórter do Estado. Houve outro encontro, depois, em Cannes, na manhã da premiação de Entre les Murs. ?Sim, eu me lembro, mas aquele foi um dia muito intenso. Não exagero se disser que, talvez, tenha sido o dia mais importante de minha vida." Há tempos Cantet queria fazer um filme sobre o sistema educacional, sobre adolescentes e seus professores. "Sou pai, vivo cercado de jovens e sei como é difícil fazer com que essa garotada fale, mesmo em família. Os jovens dizem só o que querem. Me parecia interessante a ideia de um filme em que eles verbalizassem seus desejos e apreensões, não apenas entre eles, mas em relação à autoridade, também. Mas eu não queria fazer um filme conceitual. Queria algo real, vivido. Foi quando descobri o livro de François (Bégaudeau), lançado na França, no fim de 2006."François relata sua experiência como professor na escola pública. "Ele é alguém de dentro, que pode falar na primeira pessoa. François foi decisivo porque me forneceu um ponto de vista para a abordagem naturalista que queria fazer. Gosto de um cinema que se constrói na pele dos atores, na sua sensibilidade." No livro de François Bégaudeau, Laurent Cantet percebeu que poderia usar a escola para falar do país e poderia fazer tudo isso - seu filme sonhado sobre os jovens - sem sair da sala de aula. "François trocou o magistério pela literatura, mas eu ouso dizer que seu objetivo foi sempre o cinema. Ele fez crítica, realizou alguns curtas e agora vai fazer seu primeiro longa. É alguém que vem se preparando para ser cineasta." Já que François, o professor, virou literato e cineasta, o que ocorreu com os garotos e garotas de Entre les Murs, no dia seguinte? Eles estão seguindo carreira no cinema? "Não, porque não era uma prioridade nem um desejo da maioria deles. Talvez Suleymane ainda vire um ator, pois ele tem temperamento e foi o mais exigido, dramaticamente. Mas todos gostaram muito da experiência. Foi uma convivência tão intensa, tão prazerosa, que acho que muitos gostariam de repeti-la, como grupo e não para investir em carreiras individuais."Em Cannes, ao ser entrevistado pelo repórter do Estado, François Bégaudeau confessara que muitos produtores o haviam abordado, após a publicação do livro. Mas ele, com sua experiência de crítico, fez a sua seleção. Somente Cantet, ele achava, poderia prosseguir na vertente do cinema francês que vai de Jean Renoir a Maurice Pialat, e que seria - é - a melhor para contar essa história. "Desde Cannes, no ano passado, venho encontrando jornalistas e espectadores, em geral, que se impressionam com o que lhes parece o realismo à flor da pele de Entre les Murs. Muitos definem o filme como uma mistura de documentário e ficção. É uma ficção, mas muito bem documentada." A questão da língua é fundamental. Um mal-entendido em relação a uma palavra sela o abismo entre a linguagem erudita e a das ruas e vai levar ao principal incidente dramático de Entre les Murs, a expulsão de um dos garotos.Esse incidente está no livro e Cantet sempre soube que não poderia faltar no filme. "A França é o país de Molière, mas há um linguajar muito rico nas ruas. Num certo sentido, poderia dizer que ele está corrompendo a língua clássica, mas o filme não formula juízos de valores. Não queríamos julgar - nem François no livro nem eu no filme", já dissera o diretor em Cannes. De toda essa magnífica experiência Cantet retirou um método que gostaria de repetir. Ele filmou com três câmeras dentro do exíguo espaço da sala de aula para obter o máximo de realismo e frescor das réplicas entre estudantes e entre eles e o professor. Os garotos foram escolhidos por meio de testes. Muitos já se conheciam da escola que frequentavam (e que não é a mesma em que François Bégaudeau lecionava). Cantet só encontrou seu norte quando achou que o próprio Bégeaudeau deveria fazer seu papel - nenhum ator profissional teria incorporado ao filme o que ele lhe dá. Pois é isso, agora, que Cantet sonha repetir - outra filmagem com várias câmeras, outro roteiro flexível para ser (re)criado por meio da improvisação. Mas, para complicar, ele gostaria de fazer isso num filme de época, de gênero. Por enquanto, é só um projeto vago. Convencer seus produtores - sua produtora, com quem trabalha num relação de confiança - é fácil. Difícil será encontrar o dinheiro. "Teremos tempo. Esse filme não é para agora", conclui.

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