Razão, emoção e o gosto pelo melodrama renovado

James Gray é uma raridade no atual cinema de Hollywood. Aos 40 anos - nasceu em 1969 -, ele era criança quando Steven Spielberg e George Lucas revolucionaram os efeitos especiais, mas nunca se sentiu atraído por esse tipo der cinema. Na entrevista ao lado, ele se revela viscontiano. Como o grande diretor italiano Luchino Visconti, Verdi e o melodrama são suas fontes primais de referência. Mesmo quando filma policiais (Little Odessa, Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite), Gray interessa-se mais pelos relacionamento do que pela ação. Faz um (grande) cinema de sentimentos.Na França e na Espanha, Two Lovers manteve o título original. No Brasil, a distribuidora PlayArte optou por rebatizá-lo como Amantes. Joaquin Phoenix, ator fetiche de Gray - é o terceiro filme que fazem juntos - é o protagonista absoluto. No começo, ele, que trabalha na lavanderia do pai no Brooklyn, em Nova York, está tão desesperançado que tenta o suicídio, após levar o fora da noiva. Mas ele está também ansioso por retomar a vida. A família - a mãe judia - sinaliza para essa garota que parece perfeita para ele (Vinessa Shaw), mas Joaquin cai de amores pela vizinha complicada como ele (Gwyneth Paltrow).Dois amores - você conhece essa história, mas nunca viu um filme como Amantes. Com riqueza de observação e apoiado no extraordinário trabalho de seus atores, especialmente um Joaquin Phoenix em estado de graça - mas Sean Penn, que presidia o júri de Cannes no ano passado, sabe-se lá por que, não premiou o filme nem o ator -, Gray transforma o que poderia ser uma melosa comédia romântica num drama visceral. As duas mulheres representam o instinto ou a razão, apontam para vidas tranquilas ou perigosas. O herói hesita. Algumas das melhores cenas de Amantes mostram o elo entre Joaquin e Gwyneth através de uma janela (indiscreta?). Mas Alfred Hitchcock não é referência. Visconti, sim. Amantes vai fundo na família, nas relações. Não perca o que será um dos grandes - o maior? - filme do ano.

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2009 | 00h00

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