Razão e sensibilidade

Indicado para 8 Oscars, Milk reconstitui vida e morte de pioneiro na luta pelos direitos gays

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

Acasos de distribuição fazem com que estreiem juntos filmes produzidos com dois anos de diferença, mas que de alguma forma tratam de temas parecidos ou complementares. Milk - A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant, indicado para oito Oscars, incluindo melhor filme, diretor e ator (Sean Penn), reconstitui vida e morte do político de São Francisco que personificou, nos anos 70, a luta dos gays norte-americanos por direitos civis. As Testemunhas, de André Téchiné, dá outro testemunho, imediatamente posterior, para lembrar seus mortos pela aids, nos primórdios da síndrome de imunodeficiência adquirida, no começo dos 80. Van Sant e Techiné são gays assumidos, mas o que eles fazem não é simplesmente advogar em causa própria.No recente Festival de Berlim, em que Milk foi exibido na seção Panorama - com o documentário vencedor do Oscar The Times of Harvey Milk -, Van Sant confessou que nunca havia pensado em fazer uma ?biopic? (cinebiografia) do polêmico personagem, mas que foi apanhado pelo roteiro de Dustin Lance Black. Seu projeto era outro, sobre o bairro de Castro, em São Francisco, que foi a plataforma política de Harvey Milk. Pesquisando sobre Castro, ele topou com Dustin Lance, um moço bonito ("handsome", segundo o diretor). Um dia, um amigo ligou para ele em Portland - Van Sant continua morando em Idaho -, perguntando se poderia visitá-lo com Lance, que tinha um script para mostrar-lhe. Foi assim que Milk entrou em definitivo na vida do diretor.Em filmes como Elefante, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, e Last Days, Gus Van Sant já se havia inspirado em personagens e situações reais. Ambos os filmes possuíam linguagens um tanto experimentais. Milk devolve Van Sant à vertente narrativa mais tradicional de Gênio Indomável - que Matt Damon e Ben Affleck escreveram, e os dois compartilharam o Oscar de roteiro original. A preocupação de realismo se manifesta na forma como o diretor integra imagens da época ao relato, o que dá a Milk um lado (quase) documentário. Não é um grande filme, que isso fique claro, mas é importante. Van Sant foi direto em Berlim - Harvey Milk não foi o Martin Luther King da causa gay. Ele não dinamitou a capa da sociedade puritana e homófoba em que vivia. Talvez o tivesse feito, se não fosse assassinado. Seu brado - "I recruit you" - virou palavra de ordem, e não apenas da comunidade gay. Para o diretor, Milk "foi praticamente o primeiro, o pioneiro", e assim ele o retratou.

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