Raymond Carver em versão integral

Iniciantes apresenta contos tais como foram concluídos pelo ficcionista, antes de passarem pela tesoura do editor Gordon Lish

Ronaldo Bressane, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 00h00

Já pensou descobrir que Capitu na verdade se chamava Picaxu? Ou que Josef K foi um nome inventado por um editor de Kafka - que primariamente teria chamado seu personagem de Francis Q? Ou que o conto O Cobrador, como o conhecemos, é só metade do que escreveu Rubem Fonseca? É mais ou menos essa a sensação ao ler Iniciantes (Companhia das Letras, 296 págs., R$ 49), antologia traduzida por Rubens Figueiredo que traz os contos de Raymond Carver conforme originalmente concebidos - antes da tesoura e da caneta do editor Gordon Lish. Melhor dizendo, do cutelo: há narrativas sem 70% do tamanho, ritmo alterado, personagens renomeados, frases inventadas...Tudo em nome do minimalismo de Lish. Nascido em 1938, Carver, hoje conhecido por inspirar o roteiro de Short Cuts (1993), de Robert Altman, foi um escritor cronicamente duro, oscilando entre o alcoolismo e bicos de jardineiro e faxineiro. Conheceu Lish em 1967, trabalhando com revisão em uma editora, e logo mostrou seus contos ao escritor e professor de escrita criativa - que se surpreendeu com seus sub-heróis de shopping center. Iniciaram uma correspondência em que Carver aceitava dicas de Lish, um dos primeiros a publicá-lo, em revistas como a Esquire. Ao mesmo tempo em que Carver era estimulado pelo editor, contrariava-se com as crescentes intervenções nos textos. Mais tarde, Lish foi para a editora Alfred A. Knopf, para onde levou os textos do amigo. Ao ver a edição de What We Talk When We Talk About Love (Do Que Falamos Quando Falamos de Amor), base deste Iniciantes, Carver tomou um susto com os cortes. Antes de o livro ir para a gráfica, implorou ao amigo que interrompesse o processo. Em reportagem publicada em dezembro de 2007, a New Yorker contou que Carver, então se recuperando da birita (encerrou sua vida em 1988, aos 50; estava "limpo" havia quase 10 anos), sentia-se "confuso, cansado, paranoico e com medo". Outros amigos tinham lido seus contos antes de passarem pelo açougue de Lish. Se o livro saísse "daquele jeito", escreveu a Lish, talvez nunca conseguisse escrever de novo; se brecasse a publicação, talvez perdesse a amizade do editor. Carver temia sobretudo o retorno àqueles "dias negros" passados na lona. Lish respondeu mostrando um contrato assinado por Carver lhe dando controle sobre o texto final. O livro foi publicado. E aclamado pela crítica. Carver ganhou as capas dos principais suplementos literários como "a nova voz da América, de escrita plena sobre coisas que não poderiam ser ditas". Muitas dessas coisas tinham a ver com os cortes de Lish.Carver ficou num beco sem saída, mas prosseguiu com as histórias ordinárias sobre losers da classe média baixa, textos privados de sentimentalismo ou psicologismo em que sub-repticiamente se oculta uma tensão insuportável, não raro explodindo em negras epifanias - jamais julgadas pelo narrador, o que tornam seus relatos ainda mais impactantes. Lish chamava a isso "minimalismo", procedimento mais afim com seu estilo literário do que com Carver.Em 2007, a viúva de Carver, a também escritora Tess Gallagher, lamentou no New York Times as intervenções de Lish: temia que o marido permanecesse conhecido mais pela verdade do editor que do autor. Mediante a transcrição das palavras datilografadas por baixo das supressões e alterações feitas à mão por Lish, em 2008 os acadêmicos William L. Stull e Maureen P. Carroll recuperaram os manuscritos de Carver. Hoje com 75 anos, Lish recusou-se a comentar a nova edição. O cotejamento dos originais com a edição de Lish é espantoso. Tomando-se somente o conto Diga às Mulheres Que a Gente Já Vai, a sensação é de revolta e traição. No Brasil, o conto saiu em 1994 em Short Cuts - Cenas da Vida (Rocco), traduzido pelo mesmo excelente Rubens Figueiredo. Sete páginas a menos! Toscamente, Lish fez o que no jargão editorial se chama "cortar pelo pé" - cortar um texto a partir do fim. Foi arrancada toda uma sequência, perturbadora pelo suspense, tensão sexual e acúmulo de pormenores grotescos - essenciais à compreensão física de um ato espantoso, que não se contará aqui. Comete-se contra o texto violência semelhante à perpetrada em relação a uma personagem do conto. Forçoso afirmar, entretanto, que em alguns momentos Lish acertou. Em outro conto famoso pelo não dito (a entrelinha e o subentendido são habilidades aprendidas com Anton Chekhov, maior ídolo de Carver, que usou o contista russo como personagem de seu último conto, Errand), que dá titulo ao livro, Iniciantes, uma conversa banal entre dois casais, Lish cortou diálogos que, devo reconhecer, havia lido "aos pulos" no original. Por ralentarem o ritmo, são firulas essenciais à dinâmica e dramaticidade do texto, trazem nuances e espasmos sugestivos à psicologia dos personagens, porém prejudicam a força final. Como se tirássemos de Garrincha meia dúzia de pedaladas antes de chutar a bola direto ao gol.Em outras palavras, para o mal ou para o bem, Lish alterou o ritmo de jogo de Carver - e se tornou um desnecessário intermediário de uma obra de arte exata justamente por conta de seus descaminhos. A quem somente agora tenha acesso a Carver e se maravilhe com uma escrita redentora em sua opaca e oca humanidade, talvez fosse recomendável esquecer a polêmica. Que fique o dito pelo não dito: a arte de Carver já é suficientemente silenciosa - e sempre resistirá a um silêncio roubado. Ronaldo Bressane, escritor, é autor de Céu de Lúcifer (Azougue)

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