Raciocínio sensual que envolve como a brisa

Em constante flerte com o leitor, a escrita de Javier Marías mostra como ele é um autor que domina a mecânica do segredo

Vinícius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

O espanhol Javier Marías é uma das maiores incógnitas da literatura contemporânea: autor exigente, de sintaxe complexa, seus livros vendem como água e envolvem como a brisa. No entanto, observando seu estilo, compreende-se a afeição que recebe do público europeu: seus livros se inscrevem no terreno mais comum dos homens, no conflito entre a racionalidade e o destempero. Seus narradores levam ao paroxismo o investimento contemporâneo no preconceito e na passionalidade. São frios, meticulosos, racionais - e ainda assim, no limite, revelam uma exploração do Eros do pensamento. A escrita de Marías quebra a cadeia lógica, as consequências não casam facilmente com as causas, a resposta é um prolongamento da geografia da pergunta, uma nova pele no relevo mutável do pensamento. Seus livros são pobres de ação e acontecimentos - um segredo paterno (Coração Tão Branco); uma relação extraconjugal (Todas as Almas); a relação de um autor e seu livro (Negro Dorso do Tempo) -, justamente porque o que acontece em suas ?narrativas? é a eclosão erótica do pensar, a sensualidade do raciocínio. Apesar de seus narradores serem figuras intelectualizadas - cantores de ópera, professores universitários, escritores e tradutores, agentes de inteligência -, e construírem uma sintaxe fascinada pelos limites do pensamento racional, seus discursos são derramados esforços de busca de um equilíbrio em homens à beira da histeria em face da emoção exacerbada. É como se suas narrativas fossem não formas de expiação e vingança, mas uma maneira de manterem seu norte ameaçado pela força da paixão. Dentro de uma literatura do proscênio europeu - Sebald, Banville, Esterházy, Makine, Lobo Antunes, Pamuk, etc. -, Marías acaba se tornando o mais emocional e aquele cuja recepção pública é mais calorosa. Apesar de seus romances serem inteligentes narrativas em diálogo com seus mestres Thomas Bernhard e Juan Benet, ambos escritores da razão e pensamento, a dicção de Marías é uma decantação da radicalidade que leva ao hermetismo áspero romances geniais como Perturbação (Bernhard) e Una Meditación (Benet).O romance de vanguarda se tornou um gênero - tem suas regras, marcas, índices, efeitos preestabelecidos. Escrever um romance de vanguarda hoje é como escrever um romance policial e sentimental - há um conjunto de regras, uma circulação delimitada, um público restrito, mas ávido, e um sistema de prêmios que o valorizem. Essencialmente, o sistema cultural se equilibra entre dois polos: o de "máxima" intervenção artística - o cinema de autor, o romance de vanguarda, a pintura conceitual, etc. - e o de "mínima" intervenção - os documentários brutos, os romances sociais de denúncia, a pintura espontânea, etc. Tudo que está no meio desses dois polos tem sua circulação oficial mais restrita. Mas na literatura acontece um movimento interessante: grandes narradores estão se dedicando a uma nova poética de legibilidade. Escritores como McEwan, DeLillo, Munõz Molina, Bolaño, Hatoum, Makine, Pauls, o próprio Marías, parecem trabalhar com uma crescente diluição das regras de uma impostura vanguardista que eles já começam a perceber como gênero, tirando de sua tradição aportações técnicas que ajudem suas narrativas da mesma forma com que capturam alguns ?truques? de gênero do thriller, policial e sentimental (e até ficção científica) para alimentarem suas ficções. Em alguns isso é mais evidente - DeLillo e Bolaño -, em outros, mais discreto - Hatoum e Makine -, mas o que há de comum em todos é um foco em questões narrativas de composição de personagens e enredos e tramas que são atacados frontalmente pela vanguarda. A literatura quer ser lida novamente. E não é absurdo afirmar que o grande movimento conservador atual é justamente a vanguarda - acomodada, com suas regras e ?facilidades? de composição.Marías tem sido publicado com crescente regularidade e exuberância de traduções pela Cia. das Letras. Há no trabalho exemplar de Eduardo Brandão a mesma mistura vocabular de erudição e vulgaridade do original, e ele capta com excelência a música de Marías, os ritmos de sua intricada prosa. A edição de bolso de Coração Tão Branco é leitura obrigatória. Toca um tema de todos: o segredo - o temor de conhecer o que se ignora. O romance é um emaranhado inteligente de pensamentos acerca da arte da omissão, do perigo que o segredo contém.O segundo volume de Seu Rosto Amanhã é o entremezzo da obra-prima de Marías. Para um autor tão ocupado com a mecânica do segredo nada mais fatal e natural que se envolver com uma sublime homenagem ao gênero de espionagem. Todos os temas de Marías retornam extrapolados na massa textual dos três volumes de Seu rosto amanhã. A migração principal que ocorre, no entanto, é a mudança do foco da relação entre indivíduos para os bastidores do embate da construção do imaginário social - o Estado e seus segredos, de um lado; os sujeitos sociais e seus segredos, de outro. As Guerras Mundiais, a ditadura de Franco, a construção de uma nova Europa, os fantasmas dos fascismos, a manutenção da violência - Marías, pela primeira vez em sua obra, escreve um abertamente romance político. A seu modo, mas político. Equilibrando o íntimo e o público, a tragédia dos indivíduos com o terror público da história, Marías escreve sua primeira ópera - Coração Tão Branco, O Sublime Amanhã, Na Batalha, Pensa em Mim e Negro Dorso do Tempo capturam o cotidiano, o gesto miúdo.Em Seu Rosto Amanhã, Marías ainda se ocupa com as políticas do espaço contido da intimidade; no entanto, seu voo é mais ambicioso ao trazer rostos mutilados pela violência e brutalidade da história europeia. Ele o faz, no entanto, com seu charme característico: há uma propensão abertamente erótica em Marías. Há um constante flerte entre o narrador racional e o pensamento beirando o emocional, e o leitor é quase um voyeur desse movimento amoroso. Acompanhar como um trapaceia o outro, e como se tornam cúmplice e rompem e se afagam, é um dos maiores prazeres em se ler Marías.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.