Questões sociais - Revolucionários

O republicano brasileiro deve ser sobre tudo eminentemente revolucionário.Expliquemos o paradoxo.A noção elevada da Pátria, despida da feição sentimental que a caracterizava, assume hoje as proporções de uma brilhante construção cerebral em que entram, como elementos únicos, necessários e claramente correlativos as concepções do tempo e do espaço.Mais, talvez, do que filho de uma região o homem da modernidade - é filho do seu tempo.Vinculado ao território pelas tradições e pela família, a humanidade que é a generalização desta e a história que é a síntese racional daquelas, vinculam-no a seu século.Da perfeita harmonia destas concepções resulta o homem moderno.Compreender a Pátria, isolando qualquer destes elementos, é incompatibilizar-se com o movimento evolutivo do progresso: é partir do egoísmo infecundo e criminoso de Bismark ao altruísmo exagerado - ao cosmopolitismo não menos infecundo de Anacharsis Clootz, declarando-se cidadão do mundo!A marcha das sociedades traduz-se melhor pelo equilíbrio dinâmico destas duas concepções.Devendo aos esforços comuns das gerações passadas a altitude prodigiosa de sua individualidade; preso pelas impressões do presente ao território da Pátria - o cidadão moderno, na elevação enorme em que o princípio geral da relatividade o obriga a colocar seu espírito - desde que pense no futuro - elevação a que só atingirá pela ciência - dominado pelo cosmopolitismo desta, irmana-se forçosamente a seus coevos.É uma fraternidade que se estabelece pelo cérebro e pelo coração; é um sentimento orientado pelo raciocínio, cuja existência se demonstra com a mesma frieza, tão positivamente como um princípio de mecânica e do qual a feição mais característica se chama - civilização.É esta, de fato, a nossa pátria no tempo.Negá-la é negar a função mais elevada da ciência; da ciência que além de estabelecer pelo desenvolvimento filosófico de suas teorias, a vasta solidariedade do espírito humano, sob a sua forma, empiricamente útil, como arte, subordina inteiramente a esta solidariedade as grandes exigências da vida moderna.Pois bem; a política do século XIX chama-se democracia; de há muito a colaboração de todas as ciências e das tendências naturais do nosso temperamento, despiu-a do frágil caráter de uma opinião partidária, para revesti-la da fortaleza, da lógica inquebrantável de uma dedução científica. Em sociologia, eu creio, que observando profundamente as energias, as ligações e o movimento do complicado sistema social, chega-se a ela tão naturalmente como na matemática Lagrange à fórmula geral da dinâmica. Assim, não é uma forma de governo que se adota, é um resultado filosófico que se é obrigado a adotar; forma-se um democrata como se faz um geômetra, pela observação e pelo estudo; e, nesta luta acirrada dos partidos, por fim o republicano não vencerá - convencerá; e tendo, enfim, dominado os adversários, não os enviará à guilhotina, manda-los-à para a escola. A democracia é pois como uma teoria científica inteiramente desenvolvida, simboliza uma conquista da inteligência, que a atingiu na Sociologia, depois de se ter vigorado pela observação metódica da vasta escala da fenomenalidade inferior; síntese final de todas as energias racionais (podemos assim dizer) que impulsionaram as evoluções políticas de todas as nacionalidades e definindo - na Política - o fastígio da mentalidade humana, é hoje impossível, com abstração dela, uma compreensão exata da civilização.Pois bem; se tudo isto se dá, se de fato ninguém deve fugir à ação de seu tempo e se a democracia é a forma de governo mais em harmonia com ele - é claro que lutarmos pela sua realização, equivale a lutarmos para que se complete o nosso título de cidadãos - porque ela é, de fato, o complemento moral da Pátria.Essa luta, porém - é francamente reacionária. Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizadasegundo regras do Novo Acordo Ortográfico. Preservou-se apontuação e as construçõessintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo

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