Questões ficam esmaecidas no excesso de clichês

Cia. Sankai Juku faz de Kagemi um tipo de trabalho para apenas atrair aplausos

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Em 1980, quando estreou no Festival Internacional de Nancy, na França, Sankai Juku produziu uma verdadeira comoção. O sucesso foi tão imediato, que o Festival de Avignon do mesmo ano também convidou o grupo. E se alastrou em tal proporção, que o Sankai Juku só voltou para casa, no Japão, quatro anos depois. Isso já dá uma idéia sobre o ímã poderoso daquele grupo masculino, de cabeça raspada e corpo maquiado de branco. Na época, sua imagem era muito emblemática, disseminando a lentidão dos gestos e a lógica de encenação do butô que o Ocidente começava a descobrir e a cultuar. Até o final de 2006, 700 cidades em 41 países confirmaram que o filão descoberto por Ushio Amagatsu, seu fundador, vai continuar se expandindo.Hoje, o grupo até pode ser considerado japonês/francês, uma vez que seus atuais sete integrantes moram no Japão, mas todas as produções são finalizadas em Paris, onde, desde 1982, o Théâtre de La Ville co-produz as suas criações. Ao longo do tempo, seus espetáculos foram contribuindo para a consolidação de um tipo de espetáculo que, para fins de mercado, continuou associado ao nome butô. Todavia, foi ocorrendo um processo de esmaecimento da própria força inicial do grupo e, do butô, restou apenas a fachada mais superficial: lentidão, gestos crispados, cabeças raspadas e corpos brancos.De Kinkan Shonen - A Semente de Kunquat (1978), que São Paulo conheceu no Carlton Dance Festival de 1988, a Kagemi - Além das Metáforas de Espelho (2000), a obra que o Teatro Alfa apresentou no início da semana, tornou-se ainda mais visível o efeito cartão-postal. A construção plástica sempre primorosa que guia o trabalho de Amagatsu continua dominando a cena na quarta obra que é aqui mostrada, uma vez que Unetsu - Ovos em Pé por Curiosidade (1986), foi dançada em 1997, no Teatro Sérgio Cardoso, e Hiyomeki - Dentro de Uma Leve Vibração e Agitação (1995), no Teatro Alfa, em 2000.Como a formação de Amagatsu, nascido em Yokosuka, em 1949, foi em balé e dança moderna, e os passos de dança nada mais são do que materializações de modos de pensar, seria mesmo natural que a sua criação revelasse aquilo do qual nasce. A esta altura, nem importa mais tanto que o rótulo de butô seja cada vez mais inadequado, pois é o próprio percurso da construção da sua assinatura que revela um esmaecimento de questões em favor de uma estetização cenográfica. Em Kagemi - Além das Metáforas de Espelho, fica explícita a concepção da dança como um orientalismo, conceito que pode ser buscado em Edward Said, dentre outros autores. Com ele, aprendemos a identificar quando as características escolhidas para representar algo se transformam em estigma.O "orientalismo" de Kagemi pode ser encontrado no modo como suas sete cenas fetichizam os gestos, os esgares e a movimentação. Em todas, o que conta é a espetacularização, na qual a luz ocupa papel central. A ela cabe definir e transformar, funcionando como um guia do que deve e como deve ser observado. É uma luz-cenário, assim como a música, também uma música-cenário. E a dança esbanja os clichês com os quais associamos Japão/oriente/butô. Ao que parece, é justamente esse modo de conceber suas montagens que traz sucesso para a companhia. E como corpos e ambientes vivem em co-dependência, o tipo de trabalho que o Sankai Juku propõe alimenta os aplausos que, por sua vez, direcionam como serão as suas futuras produções. Isso sim, vai além da metáfora do espelho.

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