''''Questão do menor no Brasil é crucial''''

Diretora diz que fez filme para entender ''''esses garotos que roubam e matam''''

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

26 de setembro de 2007 | 00h00

Quando lançou Justiça no Brasil, Maria Augusta Ramos não imaginava o alvoroço que causaria. Não só a crítica recebeu com grata surpresa o documentário que retrata as entranhas do sistema judiciário, dos frios tribunais do País, como também os profissionais da Justiça. ''''A repercussão no Brasil foi muito grande, principalmente entre os juízes. Eles pediam que o filme fosse exibido para suas equipes. Queriam debater o assunto'''', contou Augusta ao Estado, durante o Festival de Locarno, na Suíça, onde o filme fez sua estréia mundial. A platéia do festival também não ficou indiferente ao do novo filme de Augusta que, de certa forma, dá continuidade ao tema da Justiça. Juízo, exibido em sessão hors-concours no Festival do Rio, investiga os passos de menores infratores, do momento em que são presos até o julgamento. Esses jovens, menores de 18 anos, são típicos infratores pobres.Filmar as histórias desses meninos e meninas não foi fácil. Por lei, Maria Augusta não podia filmar os rostos dos menores. Então, a diretora decidiu usar atores. E conseguiu, mesmo sem revelar os rostos reais de seus personagens, chegar às raízes desses pequenos-grandes delitos, que indicam os problemas sociais que esses garotos enfrentam antes de chegar à corte. Todos os demais personagens do filme - juízes, promotores, defensores, agentes e familiares - são pessoas reais filmadas durante as audiências e visitas ao Instituto Padre Severino, local de reclusão dos menores infratores.Maria Augusta nos traz uma narrativa contundente e realista, mesmo com o uso da dramaticidade, sem cair no apelo do didático. Tanto em Justiça quanto em Juízo, ela deixa clara a intenção de adotar uma postura neutra, mas não abdica de fazer sua observação crítica da realidade. ''''Também evito a espetacularização. A idéia que a gente tem da justiça é de filme de tribunal americano. Aquela corte toda, quase um circo. A primeira vez que entrei em uma vara penal, um tribunal de júri no Brasil, fiquei absolutamente surpresa. Todo aquele ritual da Justiça brasileira é único. Ao mesmo tempo tão frio e tão humano, tão cheio de nuances'''', comenta.E por que filmar o Juízo no Brasil, tema difícil de ser traduzido em imagens? ''''Porque é necessário. A questão do menor no Brasil é crucial. Precisamos entender quem são esses menores. Quem são estas figuras que vão parar nos jornais, que matam, que roubam'''', rebate a diretora.

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