Questão de estilo

Assim como os jogadores de futebol que fazem faltas violentas imediatamente levantam os braços para indicar que não a fizeram, como um reflexo condicionado, os políticos flagrados com a mão na massa gritam logo que os contratos seguiram a legislação vigente e foram aprovados pelo Tribunal de Contas. Ou dizem que as contas da campanha foram aprovadas pelo TRE. Ou que tudo teve aprovação do Departamento Jurídico. Além dos clássicos "eu não sabia" e "é tudo perseguição política".É uma questão de estilo: eles nunca afirmam "eu não fiz" ou "não fui eu", usam sempre "não há provas contra mim", que deixa claro o subtexto "eu não sou bobo, soube esconder muito bem e vocês não vão achar". De novidade, só o histórico "estou cada vez mais convencido da minha inocência", de Zé Dirceu.O sinal de que a coisa ficou mesmo feia é quando eles gritam "é preciso preservar a instituição", mesmo que sejam eles que a aviltem e a desmoralizem com suas ações e omissões. E, na instituição ameaçada, todos, ou quase, fingem que acreditam. O espírito de corpo vira de porco.De olhos rútilos e lábios trêmulos, como um patético personagem de Nelson Rodrigues, Sarney bradou da tribuna: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo." Como se não soubesse que são os seus próprios membros que o enfraquecem. Além disso, como ex, ninguém sabe melhor do que ele que, para qualquer presidente, um Legislativo fraco é o paraíso da "governabilidade". Ou será que Lula prefere um Senado acoelhado, flácido e cooptável ou poderoso, aguerrido e independente? Mas para Sarney, os beneficiários da desmoralização seriam os grupos de interesses e "parte da mídia", certamente a que revela seus desmandos e omissões. Faltou pouco para culpar "a direita".Pedir a extinção do Senado é um tiro no pé, nos quatro. Mas não ofende perguntar: uma hipotética cassação coletiva e novas eleições para o Senado enfraqueceria ou fortaleceria a instituição? Prefiro não comentar. Mas estou esperançoso: Agaciel, o Delúbio sem causa do Senado, não vai afundar sozinho para que os seus cúmplices com mandato continuem boiando.

Nelson Motta, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

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