Quem se apresentou com alma convenceu

Viscerais, Cordel do Fogo Encantado e Trio Mocotó fizeram os jovens vibrar

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

Com alma. Foi assim que Trio Mocotó, Cordel do Fogo Encantado e Instituto, BNegão, Thalma de Freitas e Carlos Dafé se apresentaram a um público jovem que se dispersava facilmente durante os shows. Não era tarefa fácil prender a atenção. Um dos inventores do samba-rock, o Trio Mocotó subiu ao palco da Av. Rio Branco, dedicado ao gênero, depois do burocrático Farufyno, que não empolgou o público numeroso nem com a entrada em cena dos baianos Antonio Carlos e Jocafi. As pessoas que ocupavam as duas pistas da Av. Ipiranga, entre a Rio Branco e o Largo do Paiçandu, mal se mexiam. A exceção eram dez casais que improvisaram uma pista de gafieira no asfalto. Às 23 h, o Trio Mocotó, formado por Nereu (percussão), Skowa (guitarra) e João Parahyba (bateria), entraram com Tudo Bem, emendada por Não Adianta e Adelita. Nereu era atração à parte com sua faixa na cabeça, sua voz rouca e suas piadas. Foi direto ao ponto, ao falar que "samba-rock é para quem sabe". Deram uma aula de suingue. Quando cantaram Ziriguidum, Coqueiro Verde e A Tonga da Milonga do Kabuletê, o povo fez coro com o trio, que homenageou Wilson Simonal e Os Originais do Samba. Em Kriola, eles cantaram "a cor do Brasil, a cor chocolate, a cor mocotó". Na Av. São João, às 3 h, vários universitários aguardavam os mantras do Tim Maia Racional, disco de 1975. A massa confirmou o interesse por esse LP, hoje objeto de culto. Acompanhados pelo Instituto, BNegão, Thalma de Freitas e Carlos Dafé deram conta do recado, mesmo não cantando o disco todo. Ao fim, MC Jamal improvisou versos sobre a Virada, cansando o público. Ao privilegiarem o rap, contemplado no Largo S. Bento, eles aborreceram uma plateia disposta a se envolver. Ela Partiu, na voz de BNegão e Thalma, amenizou a situação. Um dos shows mais viscerais foi o do Cordel do Fogo Encantado, na Av. São João, às 9 h. Apoiado por três núcleos de percussão e uma guitarra, Lirinha era uma metralhadora de versos que ecoavam até o vizinho Largo do Arouche. Sua voz sussurrada fez o povo vibrar com Palhaço do Circo Sem Futuro, Chover, Na Veia, Louco de Deus. Possuído, o vocalista tinha a plateia na mão. Homenageou o encenador Augusto Boal, morto na madrugada de sábado, e Raul Seixas.Com Pedra e Bala, lembrou de Canudos, cidade baiana massacrada pelo exército no fim do século 19. "Depois de cem anos desse massacre, alguma coisa mudou?" Foi aplaudido quando afirmou: "Esses shows não são de graça, é tudo pago com os vossos impostos." Em meio à dispersão, o Cordel do Fogo Encantado lembrou que a arte serve para aproximar, e não alienar, o homem da realidade.

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