Queen, engana que a gente gosta

Mesmo sabendo que se ia ver uma banda cover, não dá para disfarçar o constrangimento nesta volta com Paul Rodgers

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2008 | 00h00

Imagine se Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá resolvessem ressuscitar a Legião Urbana, colocando Emmerson Nogueira ou Pedro Mariano no lugar de Renato Russo. A volta do Queen com Paul Rodgers "substituindo" Freddie Mercury (1946- 1991) é algo parecido com isso. Mesmo a gente sabendo que ia ver uma banda cover do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor, sobreviventes do original, show de anteontem na Via Funchal superou as expectativas em constrangimento. Veja especial sobre o QueenNem se trata de comparar Rodgers com Mercury, porque daí já é covardia, mas é que ele sozinho se basta em sua insipidez como intérprete e performer. Com visual de playboy marombado, Rodgers é tão expressivo quanto uma prancha de skate. Parece não fazer muita distinção entre o pedestal do microfone e uma barra de halteres.Quanto mais ele se esforçava em se adequar aos clássicos do Queen, mais dava saudade da verdadeira "rainha". Nem por isso precisavam apelar exibindo imagens do próprio Mercury no telão cantando Bohemian Rhapsody, para Rodgers encobrir sua voz. Mas os fãs de idades variadas - que não chegaram a lotar a casa como no R.E.M. - foram lá, no melhor estilo "me engana que eu gosto", para ouvir clássicos como We Will Rock You e We Are the Champions. Parecia prevalecer um acordo abstrato entre artistas e o histérico público, nesse embusteiro com bijuteria de camelô vendida a preço de jóia rara.Britanicamente pontual, o show começou com imagens de raios, chuva e meteoros em colisão, projetadas em grande tela com excelente definição. A estrutura era de show de arena, com efeitos bombásticos, escadarias no palco, passarela avançando sobre a platéia e iluminação grandiosa e eficaz.É claro que May e Taylor merecem respeito não só pelo passado glorioso, mas pela habilidade como músicos. Seus solos, não por acaso, foram, apesar de longos, os arroubos de maior criatividade. Até cantando Taylor é melhor do que Rodgers. Foram duas horas e meia com momentos arrastados, como a parte do Bad Company e as horrendas canções do álbum novo do Queen. Podiam ter pulado essas partes e ir logo ao que interessava.

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