''Que cantor ele era''

PILANTRAGEM: "Alegria, Alegria" era um bordão que Wilson Simonal usava muito. Ele gravou quatro discos com esse título e depois a canção reveladora de Caetano, que Simonal gravou depois dele. A seguir, Caetano fala do filme Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, da importância do cantor e da relação entre o tropicalismo e a "pilantragem", estilo criado por Simonal com Carlos Imperial."Vi o documentário e gostei muito. Vi sozinho, num cineminha de Ipanema. Mas os outros espectadores, gente que eu não conhecia, vieram todos falar comigo, me fazer perguntas. Falei tudo o que sei. O mais importante é a reaparição de um dos maiores cantores que já houve no Brasil. Também é algo imenso que os realizadores tenham conseguido o depoimento da vítima dele. Sente-se a complexidade de tudo. O fato de Bárbara Heliodora ter sido patroa da mãe de Simonal dá arrepios: é tanto do Brasil que se revela nisso! Ela fala com muita dignidade. Claro que o ponto alto é o dueto com Sarah Vaughan: que cantor ele era! E tão à vontade na presença dela! Senti falta de uma referência à passagem de Simonal por Natal. Estive com ele lá, depois de um show meu, a pedido de um cara que era uma mãe para ele. Jantamos juntos e conversamos. Isso no início dos anos 80, creio. Ele estava cheio de chinfra, como se continuasse segurando o personagem. Mas tinha cheiro de álcool e a voz, que, falando, parecia firme, cantando não funcionava mais. Fiquei triste. Ele voltou e eu o vi na TV: segurando o charme mas sem nem poder cantar. Sim, Alegria, Alegria teve o título inspirado nele (e no Chacrinha, que tinha adotado o bordão). Eu o adorava. No edifício São Carlos do Pinhal, colado ao prédio da Gazeta, éramos vizinhos e nos víamos com carinho e humor. Eu estava bem ciente dos parentescos da Tropicália com a pilantragem. Admirava a bossa dele mas sentia a fragilidade do projeto ultracomercial. Os militares que me interrogaram por 6 horas quando vim ao Brasil em 1971, numa concessão conseguida por Bethânia com a ajuda de Chico Anísio e Benil Santos, interrompendo o exílio para estar no aniversário de 40 anos de casamento de meus pais, me disseram, entre ameaças e seduções, para eu colaborar com eles, que Simonal já o fazia. Disseram outros nomes. Não acreditei. Decidi não acreditar. Houve canção feita para o governo militar por compositor/cantor que também é preto, e a desgraça não caiu sobre ele. Leia Eu Não Sou Cachorro Não. Simonal se pôs num lugar para que acontecesse a tragédia. É terrível, porque tem algo como uma caricatura da impossibilidade de um pretinho talentosíssimo, filho de cozinheira, cumprir um destino positivo até o fim."

Entrevista com

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