Quatro jeitos de fotografar a suavidade

Tapa mostra personagens que não se adaptam ao ritmo contemporâneo

, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

Em breve as imagens digitalizadas substituirão os álbuns de foto. Um certo modo de ver, que solicita o tato e é afetado pela instabilidade da luz ambiente, ficará restrito a museus e bibliotecas. Tudo somado, a tecnologia mais ajuda do que atrapalha e é duvidosa hoje em dia a existência de leitores nostálgicos que prefeririam pergaminho a papel. No território da arte, porém, as coisas não são ultrapassadas por substituição ou recusa - e diferentes modos de ver convivem na mesma época ou são mais ou menos solicitados em razão de uma dinâmica que não se rende ao utilitarismo.Retratos Falantes 1 e Retratos Falantes 2, espetáculos que o grupo Tapa encena agora, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo, seriam apenas velhos álbuns de fotografia na véspera do recolhimento museológico se não contivessem em seu interior as contradições de uma estética que duvida da sua própria eficácia no confronto com hábitos de percepção contemporâneos.Em primeiro lugar, retratos não ocupam muito espaço nem fazem barulho. Os quatro monólogos de Alan Bennett, parte de um conjunto escrito para a TV britânica, formam uma espécie de baixo relevo emoldurando um panorama teatral que usa a evidência do artifício, porque não pretende concorrer com linguagens que podem imitar à perfeição a aparência superficial das coisas. É em contraste com essa teatralidade que as personagens emergem de um escuro e se revelam gradualmente como as fotos sobre o papel sensível. Pertencem ao passado e, portanto, serve-lhes bem o modo suave e um pouco antiquado de narrar. Por fatalidade psíquica ou escolha, são quatro personagens incapazes de se adaptar ao ritmo coletivo e ao modo de viver contemporâneo. Estão quase todas insuladas no seu canto e na sua linguagem e o tempo que vivem em cena deve impressionar mais pela lentidão e suavidade do que pela rapidez e intensidade dos traços de composição.A exceção está na página de rosto desse álbum teatral, onde figura Lesley, uma atriz muito secundária. Sua Grande Chance, o mais impiedoso texto da série, captura a borboleta insegura que bate asas em torno da perigosa lamparina da arte. Pisoteada, ridicularizada, explorada, a moça reconstrói para si a aura mítica da arte do ator - e a composição de Chris Couto não tem sequer uma pitada de piedade pela colega de profissão. A ansiedade que acelera a respiração, o mau gosto das posturas e inflexões moldadas sobre clichês e também a invencível tenacidade dos sonhadores têm o vigor dos instantâneos coloridos que ainda não chegaram ao ambicionado status das revistas de celebridades. Os componentes passadistas dessa representação manifestam-se por meio da voz e da postura inspirada nas heroínas românticas do cinema de outrora.Vinda de outra era, de um passado indefinido, a narrativa de Uma Cama de Lentilhas rememora a opressão feminina nas pequenas comunidades religiosas. Clara Carvalho torna pesada e aparentemente mortal a tristeza cotidiana de sua personagem e resiste à facilidade de redimi-la pela sexualidade. Embora tenha acesso a outras experiências (Bennett incide nos clichês da sexualidade exótica), a esposa do pastor, na perspectiva desta interpretação, entreviu algo a que não terá acesso. É uma sábia decisão do espetáculo não fazer muito desse pouco.Outra dessas criaturas anacrônicas é personificada por Brian Penido Ross, em Fritas no Açúcar. Da perspectiva do narrador de meia idade, o drama edipiano, ainda que salpicado de detalhes grotescos, segrega os protagonistas e fere com a intensidade do conflito trágico. O filho servil, amoroso e por fim humilhado pela mãe que teria preferido a liberdade é uma espécie de fecho simbólico para um período da história e da cultura. Ainda que estéril e arcaico o par amoroso formado por mãe e filho constitui uma "tradição britânica" que se opõe às cores primárias, ao fast-food e, de um modo geral, ao pansexualismo da contemporaneidade. A ironia implícita na glorificação da neurose não é evidente para a personagem, mas no trabalho do intérprete há uma constante ameaça de tornar consciente a crueldade da prisão edipiana. Comentários perversos ridicularizando a idade ou a tolice maternas são pronunciados com inflexão quase neutra do desespero. É aos poucos, sintonizando o ritmo lento, a inflexão explanativa de um relato que parece não querer escolher nada, que a composição de Brian Penido Ross explora a sutileza da representação tragicômica.A Senhora das Cartas, segundo monólogo do espetáculo, é uma pequena comédia interpretada por Beatriz Segall. Os traços obsessivos da velha senhora que escreve cartas são enfatizados, de modo indireto, pela serenidade da representação. Convicta da missão cívica que atribui às cartas de protesto, a solteirona de Alan Bennet é, neste caso, digna representante do pensamento conservador. Seguindo essa pista, a atriz a representa como uma figura que não precisa se exaltar na indignação porque está segura da superioridade moral e social dos velhos ingleses. Há uma brecha nessa armadura de princípios, por onde se insinuam a exasperação e a infelicidade, mas o contorno da interpretação submete esses sintomas à rigidez exterior de Miss Ruddock. Entre esses retratos, a história da missivista compulsiva é a única que proporciona uma reviravolta dramática e o trabalho de Beatriz Segall enquanto espreita o mundo do alto prepara muito bem a felicidade da vocação realizada, quando, por fim, a personagem é forçada a descer.

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