Quatro dias para entender Ingmar Bergman

Começa hoje e vai até domingo, na Suécia e na Ilha de Farö, a programação anual em torno da obra do grande cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2008 | 00h00

Assim como Monument Valley é considerado um solo sagrado do cinema, pois mestre John Ford rodou na reserva em Utah seus maiores westerns ­- e alguns dos maiores filmes do cinema -, também a ilha de Farö, na Suécia, deveria ser tombada como patrimônio dos cinéfilos de todo o mundo. Afinal, foi lá que se isolou Ingmar Bergman, o grande cineasta - autor - que morreu no ano passado. Bergman não apenas viveu em Farö. Ele transformou a ilha em cenário de grandes filmes que estão encravados no imaginário dos cinéfilos. Farö e a Suécia retribuem. Um seleto grupo de oito convidados internacionais, incluindo jornalistas e curadores de mostra - dois de São Paulo, dois de Los Angeles, dois de Nova York e dois de Frankfurt - foram especialmente convidados pelo Instituto Sueco de seus países a participar da Semana Bergman, que começa hoje.O evento surgiu quando Bergman ainda estava vivo, há alguns anos. É constituído de encontro, debates e projeções. Bergman no início era cético, mas depois ele próprio passou a prestigiar os ?espetáculos? - como os definia - construídos em torno de sua pessoa. No ano passado, já debilitado, ele não pôde prestigiar a ?sua? semana, mas manifestou o desejo de que ela prosseguisse. A deste ano é a primeira após sua morte (em 30 de julho de 2007). E na verdade, não será bem uma semana, mas quatro dias intensos, de hoje a domingo, reunindo especialistas e curiosos, todos interessados em discutir a obra de um dos maiores artistas do cinema. A Semana Bergman de 2008 tem uma madrinha. É a diretora alemã Margarethe Von Trota.Foi em 1995 que o Festival de Gotenburgo pediu a Bergman que fizesse uma lista de seus dez filmes favoritos. A lista terminou sendo de 11 filmes, e um deles foi o drama sobre terrorismo na Alemanha, The German Sisters, assinado por Margarethe, ex-mulher do também diretor Volker Schlondorff. Com Bergman, ela foi uma das fundadoras da Academia Européia de Cinema e agora vai a Farö para um encontro muito especial, hoje à tarde. O programa da semana prevê uma ?conversation? (uma conversação) com Margarethe Von Trota - sobre Bergman, naturalmente,A semana começa oficialmente amanhã, pela manhã, com a especialista Birgitta Steene falando sobre o papel da criança no cinema de Bergman. À tarde, após o encontro com Margarethe Von Trota, haverá uma exibição da versão restaurada de Summer Interlude, de 1951, considerado um trabalho preparatório para o mais famoso - e admirável - Mônica e o Desejo. No sábado, o professor Egil Törnqvist, da University de Amsterdã, fala da paixão de Bergman por A Carroça Fantasma, clássico silencioso de Victor Sjostrom - que, no fim dos anos 50, interpretou o professor Borg da obra-prima Morangos Silvestres. O dia prevê uma visita aos locais que o grande diretor filmou em seu documentário, Farö. Na seqüência, o fotógrado Bengt Wanselius mostrará seu making of de Sarabanda, seqüência de Cenas de um Casamento (lançado somente em DVD, pela Sony, no Brasil).Domingo será um dia muito especial. A Editora Taschen antecipa seu álbum sobre Bergman, mostrando fotos inéditas e reunindo os editores Wanselius e Paul Duncan, que vão explicar o conceito da publicação. À noite, haverá projeção especial, com música ao vivo, de A Carroça Fantasma, que o próprio Bergman considerava seu filme preferido. À revista francesa Positif, em uma de suas últimas entrevistas, ele confessou que todo ano cumpria um ritual. Logo após o réveillon, iniciava o ano - e foram anos a fio - revendo o clássico de Victor Sjostrom. Numa Semana Bergman, nada melhor - ou apropriado - do que reverenciar o filme que o próprio autor colocava em seu panteão e que reverenciava como bíblia do cinema. O repórter viajou a convite da organização do evento

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