Quatro décadas sem Cacilda Becker

O talento e a generosidade dessa atriz e líder, morta no dia 14 de junho de 1969, são relembrados pela irmã Cleyde Yáconis

Cleyde Yáconis, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Desde criança Cacilda tinha o dom de comandar, mas também a argúcia de fazê-lo sem que a mamãe, a Rainha da Taba, como dona Alzira era chamada, percebesse. Sou a caçula, Dirce a do meio, Cacilda era a mais velha. Eu tinha 3 anos e lembro muito bem dela me pegar no colo e me tratar feito filha. Assumiu a chefia da casa muito cedo. Aos 12 anos conseguiu para Dirce e para mim o curso ginasial em colégio particular como contrapartida ao festival de dança que organizou no Coliseu de Santos.Há coisas em minha família que considero inexplicáveis. Em Pirassununga, para onde fomos quando nosso pai nos abandonou, mamãe dava aulas, escrevia peças de teatro e poemas. Como se explica isso se nunca tínhamos ido ao teatro, jamais a um recital? Aos 8 anos, Cacilda já falava em sair de Pirassununga, sabia que não havia horizontes ali, tinha essa percepção.Mudamos para Santos e fomos morar numa favela. Passamos fome. Mamãe nos estimulava a roubar comida na feira. E dizia: "Se acostumar eu mato, é só para sobreviver, a gente vai sair dessa." Não tínhamos móveis, só caixotes na sala, mas mamãe colocava papel crepom na lâmpada para criar um ambiente de beleza. Ela costurava nossos vestidos à mão. Havia uma atmosfera de arte naquela casa que não sei explicar.Cacilda tinha todos os dotes: cantava, tocava piano, dançava, pintava. O Miroel Silveira, que ela conheceu em Santos, disse que ela dançava como Isadora Duncan, mas até então nunca tínhamos ouvido falar esse nome. Miroel a apresentou ao Paschoal Carlos Magno, que a convidou para atuar. Ela tinha cerca de 16 anos, fez apenas três apresentações e já estava contratada pela Cia. de Raul Rolien. Nessa época eu não tinha a dimensão do que era o teatro. Cacilda e mamãe tinham. Eu não, fazia aquelas perguntas que me fazem hoje - é difícil decorar?" - achava que o mais difícil era isso. Não tinha vocação. Até hoje não tenho. Sei que tenho talento, mas não vocação. Na época queria ser médica e até hoje acho que a profissão de atriz não é completa, na medicina eu me doaria muito mais. Eu gosto dos ensaios, mas não do que cerca o teatro, o entourage.Já a Cacilda gostava da corte. Ela era vaidosa, sedutora, feminina. Levantava pela manhã e já tinha salto alto e boca pintada. Dava importância à roupa. Coisas que detesto, ela gostava. Por outro lado era magnânima, generosa, um ser humano muito melhor do que sou. Tinha um coração aberto. Seu apartamento na Avenida Paulista era um hotel, almoço para 20 pessoas, jantar para a classe artística. Era maternal, mas também possessiva, ciumenta, tudo o que não sou!Tudo nela foi antecipado, principalmente sua beleza. Diziam que ela era simpática, inteligente, mas ninguém via como era bonita. Ela era linda como hoje é Gisele Bündchen. Mas naquela época o padrão era o da vedete, a mulher de cintura fina e coxas grossas, corpo de violão, a gostosa. Hoje a coxa tem de ser magra, fina, esquelética até. Cacilda tinha uma beleza de hoje. Cabelão farto, a silhueta magra, seca, enxuta - ela não tinha um pingo de gordura. E sua voz era diferente. Uma maneira articulada de falar, tudo nela era fora de época.Em sua teoria sobre interpretação, Stanislavski fala sobre o ?círculo de atenção? que um ator tem de abrir em torno de si. Eu sei que tenho esse dom no palco, atraio o olhar. Cacilda tinha isso na vida, no cotidiano, uma espécie de luminosidade: ela irradiava eletricidade. E transferia esse poder para o palco. Em cena, não se podia tirar os olhos dela. Nas reuniões da classe teatral usava esse poder aliado ainda à rapidez de raciocínio, à fala articulada.Porém, com toda essa capacidade de atração, era uma mulher frágil, insegura. O relacionamento dela com os homens... Ai meu Deus, como uma mulher tão inteligente podia ser tão frágil no amor! Não sabia que era linda, não acreditava, porque o parâmetro de beleza feminina era outro e isso era dito constantemente. Observe como é contemporânea a figura dela: angulosa, magra, pele em cima de osso, outro conceito de beleza, não o da época. Ela ouvia que era uma mulher inteligente, não bela. Eu nunca tive problema com idade. Ela tinha, e aos 40 anos!Até para mim é difícil julgar a atriz Cacilda hoje. Porque cada época tem os seus padrões de emissão e atuação. Será que a gente gostaria de Isadora Duncan ou Sarah Bernhard hoje? Elas representavam bem para sua época e é natural que seja assim. Cacilda talvez tivesse uma forma diferente, avançada para o seu tempo, o que pode explicar esse ímã que ela exercia sobre os outros, na vida e no palco. Porém, a grande injustiça nessa antecipação dizia respeito à sua beleza, porque isso a fragilizou. Talvez ela tivesse superado a insegurança com a maturidade. Mas não teve tempo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.