Quatro álbuns de Maysa em CD pela primeira vez

São títulos antológicos da RGE, gravados entre 1959 e 1961, ano de Barquinho, agora reeditado junto com outro de 1966

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

A minissérie Maysa - Quando Fala o Coração, que terminou sexta-feira na TV Globo, dividiu opiniões, criticada, entre outros motivos, por retratar a cantora com superficialidade. Controvérsias à parte, o programa foi sucesso de audiência e despertou no público o desejo de ouvir e ler mais sobre Maysa. A procura por seus discos em vinil (e mesmo os lançados em CD) aumentou nas lojas de São Paulo, bem como pelos livros sobre ela. Também serviu de estímulo para as gravadoras relançarem outros de seus discos. Quatro deles saem agora pela primeira vez em CD, via Som Livre, que também lançou uma bem cuidada compilação com dois discos com a trilha sonora da série. A Sony também aproveitou para reeditar o ótimo Barquinho (1961), uma compilação da série Maxximum e Maysa (1966), que tem Tristeza (Haroldo Lobo/Niltinho), Ne Me Quitte Pas (Jacques Brel), Morrer de Amor (Oscar Castro Neves/Luvercy Fiorini) e a Fantasia de Trombones - que mescla Demais (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira), Meu Mundo Caiu (Maysa) e Preciso Aprender a Ser Só (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle) - utilizada como tema de abertura da minissérie.Os quatro inéditos em CD pertencem ao acervo da RGE, gravadora pela qual Maysa lançou a maioria de seus discos. Foi entre a segunda metade dos anos 1950 até o início dos 60, fase em que a vida pessoal da cantora deu muitas reviravoltas. Mas seus altos e baixos não comprometeram a grandeza de sua música. Se ela foi desleixada com o casamento e com o próprio corpo, manteve-se no mais das vezes criteriosa na escolha de repertório, embora tenha confessado ter feito "muitas concessões para obter sucesso". "Agora não há fabricante de discos que me faça gravar o que eu não sinta", desabafou em 1961. Hoje parece estranho que a determinada Maysa, que sempre viveu o drama que cantava, tenha feito algo contrário à própria vontade.Enfim, mesmo nessa fase em que deixou de lado a porção de talentosa compositora para se dedicar à interpretação (sempre profunda) de canções alheias, o que escolheu fez por merecer sua voz. Ela pode ter frustrado a expectativa do público, mas cantava como nunca, como comprovam esses relançamentos daquele período de imensa popularidade.O mais antigo é Maysa É Maysa... É Maysa, É Maysa (1959), o primeiro depois da série Convite para Ouvir Maysa. O repertório é quase uma compilação de clássicos como A Felicidade e Eu Sei Que Vou te Amar (ambas da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Manhã de Carnaval (Antonio Maria/Luiz Bonfá), Castigo (Dolores Duran) e uma versão do Hino ao Amor, de Edith Piaf, entre outras punhaladas pungentes.Em seguida vem Voltei (1960), que tem esse título porque foi lançado depois de um dos sumiços da cantora. Foi quando se internou num hospital para tratamento do alcoolismo e aproveitou para fazer uma cirurgia para emagrecer. Nessa volta (ela detestava essa expressão), Maysa mais uma vez (e gradativamente) se aproximava da bossa nova, abrindo o disco com Meditação (Tom Jobim/Newton Mendonça). Na faixa seguinte dava uma guinada radical para o lado oposto, que tinha mais a cara da "rainha da fossa", o bolerão Alguém me Disse (Jair Amorim/Evaldo Gouveia), com um arranjo cafona ao som de um tecladinho que futuramente se ouviria muito nos discos da turma do iê-iê-iê. Um samba-canção como Dindi (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira) é um meio-termo conciliador nesse (bom) disco de transição.No mesmo ano saiu Maysa Canta Sucessos (1960), em que ela interpreta divinamente hits lançados por outros cantores de respeito, como Miltinho, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Sylvia Telles, com arranjos de Henrique Simonetti.Maysa, Amor... e Maysa (1961) saiu quase simultaneamente a Barquinho, lançado pela Columbia, ambos excelentes. Se no primeiro, cheia de dengo, ela satisfazia o paladar romântico de seu público fiel - arrasando em temas como Chão de Estrelas (Silvio Caldas/Orestes Barbosa) e incluindo pérolas internacionais como I Love Paris, de Cole Porter, e os boleros Quizas, Quizas, Quizas e Besame Mucho -, também caía no suingue de Quem Quiser Encontrar o Amor (Carlos Lyra/Geraldo Vandré), fazendo a ponte com a bossa de Barquinho. Acusada de oportunista e "traidora" do estilo romântico do samba-canção, Maysa embarcou na nova onda, levada pelo então namorado Ronaldo Bôscoli, e fez um álbum antológico, sofisticado, com uma maioria de canções dele e parceiros, reunindo músicos como Luizinho Eça, Roberto Menescal e outros bambas. A grande questão era saber se seu estilo dramático de interpretar combinaria com o clima ensolarado da bossa nova. Por que não? Afinal, em tudo há uma ponta de melancolia.O pesquisador Rodrigo Faour, responsável pelos relançamentos destes quatro CDs da RGE, além de outros projetos anteriores envolvendo Maysa, diz que está negociando com a Universal para reeditar Ando Só Numa Multidão de Amores (1970), lançado em CD em 1990 e fora de catálogo desde então. Outros que saíram de circulação foram os volumes 2, 3 e 4 da série Convite para Ouvir Maysa (RGE/Som Livre). Continuam à venda o primeiro, numa edição conjunta com Maysa (1957), o da Elenco e Canção do Amor Mais Triste. O derradeiro álbum homônimo da cantora lançado pelo selo Evento/EMI em 1974 também virou raridade. Além de faixas em compactos espalhadas pelo mundo e não incluídas nos LPs, falta a Sony/BMG se interessar pelo raro e belo Maysa Sings Songs Before Dawn, álbum de 1961 gravado pela Columbia nos Estados Unidos, só lançado lá e em alguns países da América do Sul - nunca teve uma edição brasileira.

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