Quanto vale o disco? Agora, você decide

Pacote nacional da Warner é raridade, mas, no caso dos clássicos, melhor é montar sua seleção

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2008 | 00h00

Em momentos de transição tecnológica, como os que vivemos, sempre há muita esperteza. Usam-se e abusam-se de truques para capturar os incautos. No domínio da música gravada, sente-se isso na carne. Ou melhor, no bolso, a parte mais sensível do ser humano, já disse alguém ilustre. Se fecharmos um pouco mais o ângulo e olharmos para a situação da música clássica, ou erudita, acende-se uma luz vermelha. Como fazer o seu suado dinheirinho render na compra de música gravada? Continuar a comprar CDs pode ser confortável - fazemos isso automaticamente. Mas e as demais formas de se obter música? Será que vão mesmo substituir os CDs e DVDs?Estas e outras dúvidas podem ser esclarecidas graças a uma atitude surpreendente da Warner Music no Brasil. O mercado de clássicos hiberna solenemente - lança-se um ou outro CD em edição nacional, mais acoplado a uma eventual turnê ou concerto do que propriamente resultado de alguma decisão mercadológica. As exceções ficam por conta da Biscoito Fino, do Rio de Janeiro, que vem se mostrando até agressiva no segmento (um pouco graças à parceria com a Osesp; mas não só por isso); e de iniciativas isoladas, como a do ótimo selo Clássicos, em São Paulo, que lança poucos discos, mas invariavelmente de grande qualidade artística.O pacote de 10 CDs que a Warner despeja no mercado brasileiro é, portanto, uma grande novidade. Há muito tempo ninguém se aventurava assim. Ele mistura lançamentos recentes e garimpagens de fundo de catálogo. Entre os primeiros, estão dois CDs de Daniel Barenboim: um recital de piano gravado ao vivo no Scala, distribuído no mercado internacional há apenas dois meses, e sua versão da Nona Sinfonia de Mahler à frente da Staatskapelle de Berlim, de março do ano passado; e também o excepcional CD do Duo Assad, que leva no título Jardim Abandonado , de Tom Jobim, lançado em setembro do ano passado nos EUA pelo selo Nonesuch. As demais, embora não tão recentes, oferecem interesse. São os casos da ótima gravação do violonista brasileiro Turíbio Santos com as obras concertantes, em duo e solo de Joaquín Rodrigo (incluindo o eterno Concierto de Aranjuez), feita nos anos 70 pela Erato francesa; e do CD dedicado a Schubert por Kurt Masur com a Filarmônica de Nova York, gravado ao vivo em 1997 e originalmente lançado dez anos atrás.CD OU DOWNLOADÉ o CD de Masur, porém, que provoca questões bastante pertinentes para o ouvinte de clássicos de hoje em dia. Ora, você já tem a opção de comprar apenas as interpretações das peças que te interessem, e não mais o CD inteiro, que traz as sinfonias nº 3 e a Inacabada, de Schubert, e a versão para piano e orquestra que Franz Liszt fez da Fantasia Wanderer, a obra mais ambiciosa para piano solo de Franz Schubert. A leitura do pianista russo Boris Berezovski é vigorosa, e a orquestra sai-se muito bem - a química deu certo, aqui, entre regente, orquestra e solista.Pode-se, então, ficar apenas com o que de melhor aconteceu naquela noite de outubro de 1997 no Avery Fisher Hall, em Nova York. E descartar o restante. Ou seja, as duas sinfonias, que recebem execuções rotineiras, convencionais - nada acrescentam nem à reputação de Masur e muito menos à da Filarmônica de Nova York. Você pode baixar, por meros US$ 1,98 (www.amazon.com), a magnífica versão da Sinfonia Inacabada por um Leonard Bernstein jovem, envolvente, à frente da mesma orquestra. E se estiver interessado numa versão historicamente informada, com instrumentos de época e baseada em pesquisas musicológicas profundas, pode optar pela aventura atrevida de Charles Mackerras à frente da Orchestra of the Age of Enlightenment. Por US$ 7,76 ou R$ 12,95 (na mesma amazon) você ouve não só os dois primeiros movimentos escritos por Schubert mas também uma proposta de Brian Newbould, de conclusão da obra, tentando mostrar o que seriam os dois movimentos restantes, dos quais Schubert só deixou fragmentos.E como fazer para ficar apenas com a Wanderer e descartar o restante do CD? Simples. Você tem a opção de acessar o site da própria Warner Music no Brasil - www.warnermusicstore.com.br - e baixar só a faixa da Wanderer, de 21''03, por meros R$ 1,89. Barato, não? Mas você quer ir mais longe, e ouvir a versão original para piano da Wanderer: pois baixe a peça do CD da ótima pianista Elisabeth Leonskaja, por R$ 7,56, no mesmo site.Agora, se quiser baixar o CD inteiro de Kurt Masur, vai pagar a módica quantia de R$ 13,23. Isso se repete com os demais CDs no site da Warner: cada faixa do disco do Duo Assad, quase sempre em torno de 2 a 5 minutos cada, custa R$ 1,89 (curiosamente os mesmos R$ 1,89 correspondentes aos 21 minutos da Wanderer). O belo CD da meio-soprano Lorraine Hunt Lieberson, comentado esta semana aqui no Estado pelo crítico Lauro Machado Coelho, pode ser baixado integralmente por R$ 9,56 (ou você escolhe a faixa de que mais gostar e gasta R$ 1,89).Compare também os preços praticados nas lojas que comercializam o CD físico de Kurt Masur. Na rede FNAC, ele custa R$ 35,90, assim como todos os demais CDs do pacote Warner; a Livraria Cultura ainda não recebeu o pacote de CDs nacionais da Warner e vende os CDs importados por R$ 64,90, em média (o de Turíbio Santos é oferecido na versão importada por R$ 39,90, preço mais baixo porque é fundo de catálogo).Montamos, então, um CD com a Wanderer em versão original com Leonskaja (R$ 7,56), e a versão Berezovski/Masur (R$ 1,89), mais a Sinfonia nº 8, Inacabada, com a mesma Filarmônica de Nova York na leitura apaixonada do jovem Bernstein (R$ 3,30). Total: R$ 12,75. E só ficamos com o filé, descartamos o osso. Você pode fazer o mesmo com o pacote inteiro da Warner. Comemore. Êta sensação gostosa - e rara -- de preço justo. Finalmente, paga-se apenas aquilo que se quer efetivamente levar.

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