Quando Verdi e Shakespeare se encontraram

Simples e original, produção mineira de Macbeth mostra busca do compositor italiano por linguagem dramática

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

Se é verdade que a obra do compositor italiano Giuseppe Verdi apresenta, criação após criação, uma evolução constante a partir da tradição em direção a uma linguagem profundamente pessoal, é correto dizer também que há entre suas mais de 20 óperas algumas emblemáticas, pontos de virada em sua trajetória. Uma delas certamente é Macbeth, adaptação da peça de Shakespeare que, escrita no início da carreira e revisada pelo autor décadas depois, oferece um olhar privilegiado sobre sua evolução, como fica claro na montagem estreada no fim de semana no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.Macbeth aproxima-se da tradição na separação em números definidos, recitativos, árias, cabaletas. Ao mesmo tempo, porém, fica clara a busca de Verdi por uma linguagem musical que possa se livrar das amarras das convenções e surgir da necessidade dramática sugerida pela cena. Isso fica claro, por exemplo, no instante em que o personagem começa a ter visões, pouco antes de levar adiante o plano de matar o rei Duncano. E ganha força logo em seguida quando, incapaz de fazê-lo, é confrontado por Lady Macbeth. Ali, música e texto se articulam para recriar uma profusão de imagens, ruídos, visões, sensações que retratam, por meio do tormento que começa a ocupar a mente de Macbeth, o que acontece - e não vemos - dentro do quarto do rei.Da mesma forma, o papel de Lady Macbeth acabou por se tornar símbolo da busca incessante de Verdi pela fidelidade dramática: ao saber da escolha da soprano para estrear o papel, ele reclama, em uma carta, que ela tem a voz bonita e elegante demais, o que destoaria do caráter da personagem. Exigir, ainda na vigência do bel canto, escola que prezava acima de tudo a beleza das linhas de canto e das vozes, uma soprano de timbre mais "feio" é apenas a primeira de uma série de revoluções que Verdi empreenderia na história da ópera. E assistir a Macbeth é, em certa medida, nos transportar para esse momento tão fascinante da evolução criativa de um artista genial.Por tudo isso, Macbeth e Lady Macbeth são papéis sobre os quais recai responsabilidade muito grande. O barítono norte-americano Jason Stearns tem um timbre bonito, adequado ao papel, mas um tanto inexpressivo. Tudo é muito parecido, sem contrastes, o que, aliado ao gestual um pouco amaneirado, deixa sua atuação aquém do desejado em cenas como a aparição do fantasma de Banquo, durante a festa no castelo - o que é uma pena quando se tem em vista a cuidadosa e inteligente concepção cênica preparada pelo diretor Cleber Papa. Já a soprano Cynthia Lawrence, dona de uma voz grande e potente, se envolve mais com o papel, em que pesem os deslizes ocasionais, em especial quando a voz sobe para as regiões mais agudas; ainda assim, em momentos como a ária do sonambulismo, ela se sai bem perante as exigências - e não são poucas - vocais propostas pelo compositor. O restante do elenco (Luiz Molz como Banquo, Octavio Arevalo como Macduff, Ednéia de Oliveira como a dama) apresentou resultado bastante homogêneo. A regência de Fábio Mechetti, à frente da Filarmônica de Minas Gerais, é bastante correta e tecnicamente impecável, mas um pouco morna em alguns instantes, o que com certeza deve ser corrigido ao longo da temporada do espetáculo, que vai até domingo.De volta à direção cênica de Papa, o que ela nos mostra é a possibilidade de ser inventivo e original sem abrir mão da simplicidade e do desejo de narrar bem uma história. A sutil divisão do palco em dois andares, sobre os quais se revezam povo e nobreza; o modo como as ameaças a Macbeth surgem, em sua mente, sempre debaixo; os efeitos de luz que recriam a floresta de Birman; a humanização, tornando menos maniqueísta, a relação entre Macbeth e sua mulher; o investimento na criação de personagem para Banquo, muitas vezes relevado a segundo plano na história - são achados que mostram um diretor atento ao libreto e à música, de onde tira os elementos necessários para ressignificá-los. O repórter viajou a convite do Palácio das Artes

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