Quando o espaço parece dominado pelas mulheres

A feira recebeu desde ídolos das adolescentes como Thalita Rebouças e Meg Cabot até veteranas do texto para crianças como Ruth Rocha e Ana Maria Machado

Ubiratan Brasil e Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

Da gritaria desenfreada provocada por Thalita Rebouças e Meg Cabot ao papo sereno e enriquecedor de Ana Maria Machado e Ruth Rocha, os primeiros dias da 14ª Bienal do Livro do Rio foram marcados pelas escritoras. Enquanto a brasileira Thalita e a americana Meg faziam suas fãs urrarem com um simples arrumar de cabelos, as veteranas Ana Maria e Ruth foram responsáveis, na tarde de sábado, por um dos mais agradáveis encontros do Café Literário, certamente o espaço mais bem resolvido da feira.

O tema do debate era 40 Anos Formando e Encantando Leitores e, ao longo dessa retrospectiva, Ana Maria e Ruth reconheceram que ambas tiveram o mesmo "pai literário", Monteiro Lobato. "Ele nunca teve medo de falar de questões sociais", explicou Ruth. "Em seus livros é possível encontrar temas como o petróleo, a reforma agrária, a guerra."

Ela, aliás, foi novamente questionada (dessa vez, por um menino) se o personagem principal de seu livro O Reizinho Mandão era o presidente da República. "A obra foi escrita durante a ditadura, época em que era impossível dizer certas coisas", disse ela, sem responder diretamente a pergunta.

Já Ana lembrou das diferenças de se escrever para adultos e crianças. O público pequeno, segundo ela, não domina certas artimanhas da linguagem, como metáforas e narrativas reflexivas. "Claro que o cuidado é o mesmo, mas com o leitor mais novo não dá para ficar usando palavras abstratas. É preciso ser direto, apresentar uma situação que vá prender a criança."

Ruth e Ana criticaram, sem nominar, autores que hoje utilizam certos temas para abusar da autoajuda. "Especialmente em temas delicados, esses escritores acabam sendo muito politicamente corretos e produzem obras sem valor literário", disse Ruth. E Ana lembrou que elas e outros autores do mesmo naipe se diferenciam desse tipo de literatura por seu histórico. "Quando começamos, não éramos pedagogas ou mães de crianças, mas intelectuais hábeis em usar a irreverência e a inteligência. Não fossem nossos livros, publicados nos anos 1970, hoje não existiriam 80% das editoras de infanto-juvenis."

Outras boas novidades da Bienal são os espaços Mulher e Ponto e o Livro em Cena. O primeiro, charmoso e aconchegante, recebeu na quinta-feira a psicanalista Betty Milan e a antropóloga Mirian Goldenberg para uma conversa sobre a mulher de mais de 40 anos. Um público pequeno e maduro, praticamente todo feminino, acompanhou os interessantes comentários sobre o comportamento das brasileiras no que diz respeito a questões como o envelhecimento, a sexualidade e o casamento.

A conclusão: a vida pode ser ótima depois dos 40, mas só se a mulher não tentar fingir que tem 30 ou 20 anos. A jornalista Sonia Biondo, curadora do Mulher e Ponto, contou que conhece quem falsifique o passaporte com o objetivo de passar por mais jovem.

Betty defendeu que a degradação do corpo com a idade é um mito que precisa ser superado, e Mirian lembrou que pior mesmo é a degradação simbólica da mulher madura, não raro desqualificada por sua idade. O Mulher e Ponto foi criado para prestigiar o público feminino, o que mais lê no Brasil.

No Livro em Cena, coordenado pelo ator e diretor Paulo José e destinado à leitura de textos clássicos nacionais, uma mulher na flor de sua maturidade foi muito aplaudida: Marília Pêra. Com colaboração de Paulo, a atriz interpretou trechos de Memórias Póstumas de Brás Cubas e da Teoria do Medalhão, de Machado de Assis. Duzentas pessoas acompanharam atentas à performance da dupla. Esta semana, estarão no auditório, entre outros, Tony Ramos (Mário de Andrade) e Malu Mader (Clarice Lispector).

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