Quando o amor não resiste à doença terminal

Em Longe Dela, Sarah Polley estréia na direção com uma história sobre os efeitos do mal de Alzheimer

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2007 | 00h00

A canadense Sarah Polley é uma atriz singular. Em seu currículo, constam filmes como O Doce Amanhã, de Atom Egoyan, Estrela Solitária, de Wim Wenders, e Minha Vida Sem Mim, de Isabel Coixet, entre outros, todos com uma tremenda carga emocional, revelada de uma forma contida. Foi com tal espírito que ela dirigiu seu primeiro filme, Longe Dela, que trata com muita dignidade da relação amorosa na velhice, quando os problemas de saúde interferem na paixão. Acompanhe a programação completa da 31.ª Mostra Grant e Fiona formam um casal culto que desfruta de uma vida confortável até o momento em que ela revela os primeiros sinais do mal de Alzheimer. Inicialmente relutante em aceitar se internar em uma clínica especializada, Fiona acaba cedendo quando Grant a encontra, certa tarde, perdida em uma ponte. O drama torna-se mais intenso quando, na clínica, Fiona transfere sua afeição para outro homem, Aubrey, também internado, ignorando a existência do marido. Não resta a Grant outra saída que tentar fazer a mulher a se lembrar de seu passado, enquanto convive com a dolorosa paixão dela por Aubrey, cuja doença o impede de falar. A história é ambientada em Ontário, no Canadá, e durante as festas de final de ano, ou seja, sob uma neve implacável que parece afogar qualquer sentimento mais caloroso. Por conta disso, Sarah Polley apóia-se sabiamente na interpretação de seu elenco, notadamente no casal central formado por Julie Christie e Gordon Pinsent. A passagem da lucidez para os momentos em que sua mente torna-se afetada é cuidadosamente encenada por Julie Christie, que evita detalhes perigosos como olhares ou expressões que transmitissem uma insanidade exagerada. Já Pinsent, se inicialmente parece controlado demais com a doença da mulher, logo revela a agonia do personagem quando obrigado a compartilhar a paixão com outro homem. O casal transmite uma dignidade controlada até demais, se analisada pelos padrões latinos. O contraponto está em Marian, mulher de Aubrey, também exemplarmente interpretada por Olympia Dukakis. Ela ilustra as drásticas decisões tomadas pelas famílias, obrigadas a enviar seus entes para clínicas em vez de cuidar deles em casa. E também a abertura que concede para uma nova relação, agora com Grant. Afinal, apesar de tudo, é preciso viver.

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