Quando nos conhecemos, ele não vivia assim...

Agora dizem que ele comprou um apartamento em Miami e viaja para lá três vezes por ano, mas quando nos conhecemos, ele não vivia assim. Lembro que aos domingos passeávamos no Jardim da Luz, ele gostava de ver os passarinhos empoeirados, imitava os pássaros que nem uma criança, ele queria voar mais alto que as aves, mas ainda não tinha asas. Depois nós caminhávamos até a antiga rodoviária. Ele admirava a cobertura da estação, aquele céu artificial com gomos de plástico coloridos, o céu que abrigava pessoas tristes e pobres. Ele ainda me chamava de Linda, eu oferecia a ele uma esfirra, um pastel de carne, meu ex-namorado não tinha onde cair morto. Um biscateiro bonito, isso ele era. Aí fez um teste para ator de TV e se saiu bem. Bem? O que digo? Ele se saiu maravilhosamente bem. Ele e minha melhor amiga, que agora é atriz, ou se diz atriz. Hoje, os dois atores ganham uma fortuna, e eu continuo em sala de aula, lecionando matemática a jovens que não sabem calcular a raiz quadrada de 16, não sabem sequer somar a idade dos pais. Muitos não têm pai nem mãe, ou nem conheceram os pais. Ninguém sabe matemática, mas todos querem ganhar dinheiro. E o que faz a fama? Meu ex-namorado trocou nosso amor pela tela de TV e ficou mais famoso que um político; ele, que nunca foi de rir, agora dá risada por qualquer coisa, qualquer besteira, como se o mundo fosse uma gargalhada sem-fim. Ele não me chama mais de Linda, e sim de Lindalvina, meu nome. Ele quis que eu conhecesse o apartamento que comprou na Casa Verde. Foi minha única visita, ele mal conversou comigo, só falava nos tapetes, na decoração, na banheira, nas torneiras que imitam cisnes dourados. Você precisava ver o apartamento: todo atapetado, a sala entupida de móveis laqueados, com figuras de elefantes e macacos e serpentes, horríveis pro meu gosto. Cada foto do galã deve valer uma fortuna, nem assim ele me ajuda, porque agora vive em outro mundo. Agora sou uma amiga distante e não o vejo mais. Ou não sou mais nada e só tenho notícias dele quando encontro amigos que me dizem: Ele está em Palm Beach. Ou: Ele apareceu na capa de tal revista, vai fazer o papel de bandido ou de garanhão em tal novela ou seriado. Mas esse ator, o bandido ou garanhão que brilha na tela, morou comigo nos fundos de uma casa em Diadema, um quarto-e-sala onde as baratas nos visitavam e eu, não ele, as matava. Você deve pensar que tudo isso é ressentimento de mulher abandonada. Pode ser. Mas só assim consigo recordar essa história, porque nem todas as lembranças são boas. Se ele ler sua crônica, vai se reconhecer. Não é preciso citar o nome dele. O meu nome, sim. Para que ele saiba que o galã de hoje foi o vendedor de sonhos na Praça da República, ou na Sé, onde ele distribuía um panfleto horroroso sobre o futuro de cada pessoa que enganava: O teu destino é cheio de alegrias admiráveis, mas nem tudo que reluz é ouro... Para que ele saiba que no nosso quarto ele pendurava a foto da mãe dele quando fazíamos amor; e que ele se julgava um artista de cinema antes de ser o péssimo ator de dramalhões vulgares. Quando eu o conheci, ele me escrevia cartas de amor, cartas mal escritas, o que não é demérito no nosso pobre país; então eu o estimulei a ler bons livros, porque ele só lia livros que falavam de sonhos grandiosos, receitas para se dar bem, conselhos para se tornar um líder; lia também biografias de cães e gatos famosos. Eu dei a ele livros de crônicas de Rubem Braga e Lima Barreto, e ele ficou deslumbrado; depois dei uma novela de Tolstoi e uma antologia de contos de Machado, que ele adorou. Demorava uma semana para ler um conto, uma crônica, mas lia. Às vezes lia em voz alta, em pé no nosso quarto; lia devagar, quase soletrando, mas que voz! Depois decorava frases e parágrafos inteiros, uma memória de gravador. E por um momento pensei que ele ia se salvar da banalidade deste mundo em que vivemos, mas foi engolido ou seduzido pela fama e ambição. Se ele se lembra de tudo isso? Acho que sim. Por via das dúvidas, escreva na sua crônica que ele foi um péssimo amante nas nossas primeiras noites; escreva também que fui eu que lhe ensinei a amar. Ele nunca vai se esquecer disso, porque era o que mais o atormentava.

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