Quando lançada, peça foi criticada pela esquerda

Uma gripe e uma agenda lotada impedem a vinda de Ariano Suassuna a São Paulo para acompanhar aquela que é apontada como sua peça preferida. "Não gosto de afirmar isso pois posso parecer autor de um trabalho só", diverte-se. "Acho que é uma defesa do meu subconsciente, pois o Auto da Compadecida é muito mais reverenciada pelo público e crítica."Escrita em 1960, Farsa da Boa Preguiça resgatou o teatro de verso. "Peguei o tom da farsa mais antiga que me deu oportunidade para uma recriação poética da realidade", comenta Ariano, que ainda lamenta a má recepção sofrida pela peça naquela época. "Acho que os motivos foram mais políticos: o pessoal da esquerda, que era muito radical, não compreendeu o texto. Acreditava que eu aconselhava o povo brasileiro à preguiça, o que não era verdade." Diante da força política daqueles críticos, o escritor preferiu se calar. "Não costumo dar explicações a poderosos."Quando a peça foi publicada em livro, em 1973, a situação era outra, menos libertária. Mesmo assim, Suassuna defendeu sua obra ao citar estrofes finais do terceiro ato: "Há uma Preguiça com asas, /outra com chifres e rabo. /Há uma preguiça de Deus /e outra preguiça do diabo." "É evidente que eu estava ao lado da preguiça de Deus."A redenção completa aconteceu quando o filósofo italiano Domenico De Masi tornou mundialmente conhecida sua crítica à obsessão consumista das sociedades pós-industriais, defendendo a ideia do ócio criativo. "Eu já antecipara esse pensamento com a peça", comenta Suassuna. "Mas fiquei muito grato a ele, pois a palavra de um sociólogo parece ser mais levada a sério que a de um escritor."Suassuna gosta ainda, com especial atenção, da personagem Clarabela, a falsa intelectual. "Ela foi inspirada em uma senhora que conheci, que se julgava culta, mas só dizia sandices."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.