Quando Deus descobriu que errou

Em DVD, Bryn Terfel e Willard White oferecem interpretações vibrantes do atormentado Wotan de A Valquíria, de Wagner

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

07 de janeiro de 2009 | 00h00

Um cantor é jovem demais; o outro, já passou do auge da carreira. Na teoria, nenhum dos dois seria a primeira escolha para interpretar o temido papel do deus Wotan na Valquíria, a segunda das quatro óperas do ciclo O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner. Na teoria, porque na prática os dois acabam de oferecer interpretações que estão entre as melhores das últimas décadas. O primeiro deles é o baixo-barítono galês Bryn Terfel, Wotan da Valquíria da Royal Opera House Covent Garden, de Londres, regência de Antonio Pappano; o segundo, sir Willard White, na montagem promovida pela Filarmônica de Berlim e o Festival de Aix-en-Provence, na França, e comandada por Simon Rattle.O deus Wotan é um dos mais fascinantes personagens do Anel e da obra de Wagner como um todo. Reproduzir todo o enredo da Valquíria exigiria linhas e linhas. Basta, no entanto, dizer que a ópera flagra o personagem tentando construir um novo mundo, baseado no amor e na justiça. O problema é que, para tanto, ele se corrompe, abrindo caminho para a morte dos deuses e o início do reinado dos homens sobre a terra.Nesse caminho da certeza à queda, Wotan revela-se contraditório e múltiplo, onipotente e, ainda assim, escravo de suas próprias paixões e seus erros; ambivalente, imagina um futuro brilhante, sem perceber que, com isso, se torna incapaz de lidar com o presente. As possibilidades de leitura são muitas. Wotan pode ser o retrato do próprio Wagner, com diz Michel Schneider; já Bernard Shaw o interpreta como símbolo da decadência do Estado e da Igreja. E isso para citar alguns exemplos, encontrados nos livros - quando vamos para o palco, então, nas montagens da ópera, que se multiplicaram desde a estreia, em 1876, Wotan já foi desde líder do regime nazista até o presidente dos Estados Unidos.Tamanha riqueza coloca de cara um desafio a qualquer intérprete. Suas cenas são grandiosas. No segundo ato, feliz com o desenrolar de seus planos, é confrontado pela deusa Fricka, sua mulher, que lhe expõe toda a falha de seus atos, toda a corrupção; em seguida, o monólogo em que explica à filha Brünhilde tudo o que pretendia, revela a ela como errou e ordena que ela mate Siegmund, seu filho e artífice da construção desse novo mundo, é de arrepiar; no terceiro ato, quando Brünhilde o trai, alegando que a morte do filho não é seu verdadeiro desejo, então não apenas deve punir a filha que mais ama como também, enquanto o faz, é mais uma vez obrigado a se confrontar com seus desejos mais íntimos e perceber-se o "homem menos livre do mundo".A montagem de Aix-en-Provence, assinada por Stéphane Braunschweig e lançada em DVD importado da Bel Air, centra todas as suas forças no aspecto psicológico das personagens; cenários e figurinos são reduzidos ao essencial, sugerem mais do que de fato dizem, afinal, na mente do diretor, o que importa mesmo é o conflito de cada personagem - e esse conflito tem de ser passado na interpretação dos atores. Já a concepção de Keith Warner para o Covent Garden recria no palco um mundo destruído, formado por escombros, ou seja, segue o caminho inverso, reproduz visualmente a decadência e a corrupção perpetrada pelos personagens. São duas leituras excitantes, com efeitos técnicos muito ricos e, às vezes, surpreendentes, como no momento em que, na montagem inglesa, Wotan evoca o deus do fogo, Loge, para proteger o corpo adormecido de Brünhilde.Willard White tem muitos anos de interpretação de Wagner nas costas. Seu Wotan é o de um artista maduro, que conhece cada pedacinho da partitura, que interpreta cada palavra, o que lhe confere uma autoridade única em cena. O ponto alto é o dueto com a filha, no terceiro ato, em que fica claro o aspecto humano, digamos assim, do deus, e sua tentativa de negá-lo, com Wotan lutando para controlar dentro de si a ambiguidade do desejo de vingança - não se trata afinal apenas de punir uma filha desobediente, mas, também, de, ao fazê-lo, aceitar em definitivo seus próprios equívocos, retirando-se para a casa dos deuses, onde deve esperar o fim dos tempos. Qualquer limitação da voz, que perde um pouco do brilho nas partes mais agudas da partitura, é jogado a segundo plano perante o olhar captado pelas câmeras.Terfel, em Londres, fez seu primeiro Wotan (a montagem de 2006 deve ser lançada ainda este ano em DVD, mas a transmissão ao vivo pela BBC pode ser baixada facilmente na internet e encontrada em sites como o YouTube). A crítica, em geral, definiu seu Wotan como jovem demais, com um timbre claro, que seria um obstáculo na construção da alma atormentada da personagem. Há uma certa razão nisso tudo. No entanto, poucos cantores hoje têm vozes tão bonitas, de técnica precisa, e a inteligência musical de Terfel. Ver um intérprete assim iniciando sua construção de um personagem que tem tudo para ser sua marca registrada é fascinante. E não só isso. A maneira como ele constrói as longas e complicadas linhas de canto wagnerianas, os contrastes entre claro e escuro em momentos como o monólogo do segundo ato e a ansiedade e urgência no dueto com Brünhilde evidenciam toda a riqueza da partitura da ópera - e já sugerem novos olhares sobre o papel.Quanto ao resto do elenco, o resultado é muito desigual. A Brünhilde de Lisa Gasteen em Londres decepciona ao passar como trator por praticamente todos os grandes momentos da personagem; já Eva Johanson, em Aix-en-Provence, é mais cuidadosa nas sutilezas do papel e ao evidenciar a transformação pela qual é submetida a personagem, da inocência adolescente à decisão de desobedecer o pai. O casal Siegmund e Sieglinde de Londres é interpretado por Jorma Silvasti e Katarina Dalayman com muita delicadeza e lirismo (o elenco original da montagem tinha nos papéis os experientes Plácido Domingo e Waltraud Meier, o que nos faz perguntar por que diabos não foi essa a versão filmada para a TV). Na França, Robert Gambill e Eva-Maria Westbroek demonstram um pouco mais de maturidade e urgência. A Fricka de Lisa Paasikivi é uma boa surpresa, mas é difícil superar a interpretação da experiente Rosalind Plowright em Londres, que faz do dueto com Wotan um dos melhores momentos da montagem. Rattle e Pappano mostram leituras bastante diferentes; o primeiro parece trabalhar as cenas individualmente, enquanto o segundo procura construir um arco mais amplo ao longo de toda a ópera. Para os dois, no entanto, falta pegada, digamos assim.

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