Quando Copacabana chega ao palco da London Fashion Week

Criações inspiradas nas cores brasileiras movimentam a semana de moda mais agitada da Europa

Flavia Guerra, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

"Veja bem, querida, estou muito feliz com esta coleção, que evoca um espírito exótico, aventureiro, que tem o deserto como ponto de partida, mas não é minha coleção mais autoral. As idéias mais ousadas e provocadoras deixo para Paris, onde mostro o Golden Label. Para o Red Label, que mostro em Londres, deixo sempre este gostinho de leveza e revisito outras coleções passadas."Foi assim, franca e despreocupada, que Vivienne Westwood explicou ao Estado sua coleção Red Label Primavera-Verão 2009 enquanto sua equipe se preparava para entrar na passarela do Earls Court, em Londres. Como ela mesmo disse, vejamos bem. Quando a dama da moda do país deixa para Paris suas criações mais ousadas, está na hora de olhar para outros horizontes se quisermos enxergar o de que fato significa o sangue novo da moda inglesa. Westwood, mesmo quando cria sua coleção frugal para a London Fashion Week, continua a dama punk da moda. Afinal, há algo mais punk que ter Pamela Anderson na primeira fila de seu desfile? No entanto, uma semana e 52 desfiles depois, há muito o que se comentar. Vale lembrar que a London Fashion Week ainda é apontada como a menor das maiores semanas de moda do mundo - ao lado de Paris, Milão e Nova York. Ser menor, seja em termos de criação, seja em termos de mercado, não é necessariamente ser menos interessante. A eclética London Fashion Week abriga desde Mrs. Westwood, Stella McCartney, até Paul Smith e Giles, mas abre espaço em sua concorrida agenda de seis dias para nomes que não são tão óbvios dos que não costumam freqüentar os quarteirões badalados do West London. Eley Kishimoto, Nicole Farhi, Duro Olowu, Bora Aksu, Josh Good... Nomes que fazem a cara da atual alta moda inglesa e que reforçam a vocação para o novo de uma cidade que transpira diversidade e contradição por todos os lados. Já que o assunto é moda e estilo, tendência é vocábulo que não pode faltar. A mulher, figura central da esmagadora maioria das criações, é cada vez mais ?poderosa?, ao mesmo tempo que quem desfila seus vestidos multicoloridos e fluidos quer praticidade. Palavras de ordem já clássicas para uma moda já globalizada. Na linha da praticidade, os detalhes dizem muito. Antes de mais nada, o make up básico. Na Primavera-Verão 2009, a mulher vai desfilar seus looks high-low em consonância com uma maquiagem milimetricamente calculada para não aparecer. "Os tons desta coleção atual e da próxima estação são terrosos. Tudo muito natural. Nada de exagero. Nos olhos, que ganham o maior destaque, lápis e sombra marrom, cobre, dourado. Na pele, uma base que uniformiza sem deixar artificial. E na boca, nada muito marcante. Um gloss clássico, cor da boca. E pronto!", explicava o maquiador Neil Young, da M.A.C, enquanto preparava a top britânica Jourdan Dunn (nunca ouviu falar? confira a capa da i-D neste mês). Dunn é a ?lovely face? do momento. Do alto de seus 18 anos, sua beleza negra casa perfeitamente com os tons naturais atualmente perseguidos pela make up e pelos estilistas. Dunn fechou o desfile de Westwood vestindo um desestruturado tubinho xadrez. A união da tradição britânica com o conforto do verão. Ponto para a M.A.C, que criou uma palheta de cores perfeita para um verão internacional. Ponto para Mrs. Westwood, que une as pontas de um mundinho fashion global. Ponto para Dunn que, mesmo depois de levar um belo tombo no desfile da Issa, saiu coberta de aplausos da passarela. Por falar em Issa, há um quê de Brasil no verão da grife que, após breve intervalo, voltou à London Fashion Week. Issa é a grife criada pela brasileira Daniella Helayal. Queridinha das princesinhas do jetset, Daniela e suas criações já vestiram Madonna, Scarlett Johansson, as princesas Eugenie e Beatrice e Kate Middleton (?atual? do príncipe William). As princesinhas estavam todas na primeira fila para conferir o que acontece quando Copacabana aporta em Londres. "Yves Saint Laurent, Gianfranco Ferré e Copacabana, todos nos anos 70, têm sido minhas inspirações", comentou a estilista. O efeito de seus vestidos com ar de "espírito livre brasileiro e cores vibrantes" (como definiram os principais jornais londrinos) foi um sucesso. A platéia se deixou levar pela boa energia e aplaudiu efusivamente quando Naomi Campbell surgiu em uma versão branca do Lucky Dress (o vestido que traz sorte para quem o usa), a criação de maior sucesso da estilista. O Brasil não ganha atenção só quando o assunto é Issa e as cores, volumes e leveza (que toda brasileira tem no armário e sabe muito bem desfilar pelos calçadões Brasil afora) que Daniela sabe explorar tão bem. O País ganha espaço a cada dia em cada detalhe do pequeno grande universo fashion. Dos belíssimos sapatos criados com esmero pela designer Raouda Assaf (libanesa de nascença e brasileira por opção) para a Basso & Broke à cobiçada Melissa, passando pelo stand exclusivo da grife de acessórios Borba Margo na concorrida Exposition (espaço para exibir novos criadores na imensa tenda montada pelo British Fashion Council em pleno ?quintal? do Museu de História Natural). O brasileiro Bruno Basso e o inglês Cristopher Brooke souberam explorar esta tal da energia colorida brasileira para criar uma coleção que elegeu o vestido leve como peça básica. Montadas nos sapatos (que, como explicou Raouda, recriam um jardim japonês aos pés das mulheres), as tops surgiam "sensualmente exuberantes e fortes" (como bem define Bruno) embrulhadas em estampas e formas que remetiam aos origamis e aos jardins orientais. Ponto para a dupla, que ganhou críticas para lá de positivas.

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