Quando as fraquezas viram força

Kung Fu Panda, desenho da Dreamworks, é uma fábula que faz o elogio da diferença num mundo que tende à uniformização

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2008 | 00h00

Por um lado, você tem o atrativo das vozes - Dustin Hoffman como o mestre Shifu e Angelina Jolie como dos seus discípulos, a Tigresa. Por outro, um desenho agradável, que tem a saudável virtude de servir humor no prato sisudo das artes marciais, gênero que há algumas décadas assola o cinema de Hollywood. Aliás um dos gurus do gênero, Jackie Chan, dubla outro dos personagens, o Macaco. Assista ao trailer da animação Kung Fu Panda Bem, essa bicharada (com todo o respeito) é treinada pelo grande mestre Shifu. Eles deverão colocar seus ensinamentos em prática para salvar o Vale de um malfeitor, o leopardo Tai Lung, que escapou da prisão. Quem rouba a cena é o urso panda Po (dublado em inglês por Jack Black e, em português, por Lúcio Mauro Filho). Aliás, na versão caseira, a voz da Tigresa é de Juliana Paes o que, convenhamos, é adequado. O filme é dirigido por John Stevenson e Mark Osborne.A idéia responsável pela graça do filme é colocar algumas situações francamente estapafúrdias em confronto. A começar pelo anti-herói panda, que trabalha no restaurante do pai, servindo macarrão, e não se parece em nada com o progenitor. Além disso, ele é glutão, está fora de forma, adora artes marciais mas não parece capaz de executar o mais simples dos movimentos.É claro que por trás dessa comédia existe uma série enfileirada de idéias politicamente corretas. Por exemplo, a maior dentre elas: basta sermos nós mesmos para vencer na vida. Nada vai mais de encontro ao senso comum do que essa idéia tão generosa como inverossímil. Tudo o que a sociedade nos pede (ou melhor, exige) é que sejamos cada vez menos ''nós mesmos'' e estejamos prontos a assumir os papéis que nos designaram. Na família, na escola, na empresa, em qualquer parte.Pois bem, nessa sociedade que elogia a diferença mas aspira à uniformidade, cai com simpatia o personagem desse ursinho gordo, guloso, preguiçoso, meio desbocado, sem pé na realidade - e que, com tudo isso, consegue se transformar em grande herói. Existe também a idéia, levemente engenhosa, de que se deve aproveitar até mesmo uma eventual fraqueza para transformá-la em vantagem. É por isso que a gula, esse pecado capital, poderá ser usada pelo mestre para transformar o panda num grande lutador e assim poder enfrentar o oponente, Tai Lung.O desenho é bem-feito, utiliza bem a possibilidade de ''movimentos de câmera'' e outros recursos disponíveis na tecnologia. No quadro da animação mundial, há que se distinguir esses desenhos animados dos grandes estúdios (este é da Dreamworks) dos mais modestos, feitos de maneira artesanal. Kung Fu Panda é da linha blockbuster, com muita grana investida e, por isso mesmo, disponibilidade tecnológica total. No caso, usada de maneira inteligente.Como se sabe, a tecnologia é apenas uma parte. Não se pode torná-la um fetiche. Ela deve estar a serviço das idéias e nunca dominar o projeto. No caso de Panda o que predomina, afinal, são as idéias interessantes e o bom humor. Por isso o filme é simpático.Serviço Kung Fu Panda (92 min.) - Animação. Dir. Mark Osborne e John Stevenson. Livre. Cotação: Bom

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