Quando as estrelas morrem cedo demais

O desaparecimento de Heath Ledger faz pensar que, quando uma vida notável acaba, uma geração começa também a sumir

Jenny Lyn Bader, O Estadao de S.Paulo

04 Fevereiro 2008 | 00h00

O homem jovem deitado em uma cama parece estar em paz. Talvez você o reconheça ou talvez ou não, uma vez que ele não está num papel conhecido. Ele devia acordar, mas não acorda, provocando um surto de tristeza pública. A morte de Heath Ledger aconteceu há exatas três semanas, mas ele já está se transformando de um ator aclamado ao verbete mais buscado na internet, de um astro do cinema a uma pedra de toque cultural. A blogosfera ''''ferveu''''. Em dois dias, a página em memória do ator no Facebook já teve mais de 30 mil cadastrados. O site de entretenimento TMZ gerou mais de 74 páginas de comentários dos usuários. Centenas de elogios para o australiano de 28 anos apareceram no site do jornal The Sydney Morning Herald. A que se deve esta necessidade de prestar tributo publicamente? Sucessivas gerações sentiram esse mesmo impulso - a necessidade de tentar compreender uma morte prematura, e até mesmo justificá-lo, celebrando a pessoa que morre jovem de uma forma exagerada ou, com muita freqüência, comparecendo ao funeral de alguém que não conhecem pessoalmente. Quando o corpo do ator Rodolfo Valentino foi exposto à visitação pública em 1926, aos 31 anos de idade, mais de 50 mil fãs vieram homenageá-lo. Em 1955, adolescentes e jovens adultos prantearam a morte de James Dean, aos 24 anos, e, no seu caminho para o panteão, ele recebeu duas indicações póstumas para prêmios da Academia. Em 1994, a Geração X também perdeu uma lenda do rock aos de vinte e poucos anos, com a morte de Kurt Cobain. Cobain foi um modelo infeliz para alguns dos seus jovens seguidores, inspirando alguns suicídios por imitação e fomentado especulações de que poderia haver uma onda de tais suicídios. Este fenômeno, conhecido como Efeito Werther, recebeu esse nome do livro de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther. O popular romance apresenta um herói que, como Cobain, inspirou fãs a se vestir como ele e também a morrer como ele. Quando Marilyn Monroe morreu de overdose de medicamentos há 30 anos, não demorou muito para haver uma breve elevação na taxa de suicídios nos Estados Unidos de 12%. Felizmente, talvez graças a toda a terapia e antidepressivos disponíveis na década de 1990, Cobain nunca gerou o Efeito Werther como Werther. O suicídio de astros nos choca, pois traz à baila a questão se, por debaixo de seu exterior glamouroso, as celebridades são tão infelizes e deprimidas quanto os demais. O suicídio dos miseráveis atrai atenção, também, mas apenas ocasionalmente. Em 1770, em situação de penúria, o poeta Thomas Chatterton matou-se aos 17 anos. Seus talentos só foram reconhecidos mais tarde, quando os poetas românticos começaram romantizar seu brilho literário e morte trágica. Dois desses que celebraram Chatterton mesmos também tiveram um fim precoce - John Keats, de tuberculose aos 25 anos, e Percy Bysshe Shelley, por afogamento aos 29 anos. Até o momento, a morte de Ledger parece ter sido não intencional. Não importa, pois a morte não intencional de alguém com tanto ainda para viver cativa o público também. Considere a obsessão que circunda Tutancâmon mais de 3 mil anos depois de sua morte aos 18 anos. No aspecto geracional, a morte de um contemporâneo assusta mais os jovens. Quando uma vida notável acaba, essa geração começa a acabar também. A morte de alguém no pleno apogeu da vida nos lembra da nossa própria mortalidade. Talvez o fato de nós torná-los imortais seja nossa forma não enfrentar essa inevitabilidade. Ainda, em última análise, a perda súbita de um jovem astro traz consigo uma mensagem poderosa, não apenas sobre a morte mas também sobre as escolhas de vida. Pense no dilema de Aquiles, o herói grego que soube com a mãe que tinha duas opções - voltar para casa e levar uma vida longa ou morrer na guerra e conquistar uma fama perene. Ele escolhe a fama mediante sua morte prematura e é pranteado tanto por mortais como por deuses. Quando um superastro de vinte e poucos anos morre, não podemos deixar de pensar em quantas celebridades fazem o pacto de Aquiles com a fama. De certa forma é confortante, talvez até mesmo uma afirmação da vida, para a maioria dos seres humanos que não são superastros achar que eles escolheram o outro caminho. Depois, existem os admiradores extremados. Um grande fã de Aquiles foi Alexandre, o Grande que, aos 25 anos, já tinha conquistado o mundo conhecido e morreu aos 32. Ledger foi convidado para o papel de Alexandre, mas este acabou sendo desempenhado por Colin Farrel no filme biográfico. Em vez disso, ele será lembrado por ser um protagonista que é todas as coisas para todas as pessoas, desde o próprio Casanova até Ennis del Mar em O Segredo de Brokeback Mountain passando por um cavaleiro na sua cintilante armadura. De certa forma, será recordado pela sua coragem, numa época e numa idade em que desempenhar um papel de homossexual requer coragem. E hoje ele parece propenso a conquistar ao menos parte do mundo conhecido de uma outra forma.

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