Quando a voz de Eliane Coelho flutua soberana

Cantora destaca-se em momento de grande beleza na interpretação de Strauss, com a Sinfônica Municipal

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

01 de outubro de 2008 | 00h00

A Passacalha op. 1, de 1908, com que Rodrigo de Carvalho iniciou o concerto de sexta-feira com a Sinfônica Municipal, pertence à fase inicial da carreira de Anton Webern. Ainda de caráter expressionista, mas já marcada pela suspensão das funções tonais, é uma seqüência de 23 curtas variações - cada uma delas com oito compassos, a mesma extensão do tema, exposto pelas cordas em surdina e em pizzicato - a que se segue uma 24ª variação mais ampla, funcionando como a coda. A peça, de que a OSTM fez uma execução persuasiva, já exibe certos traços típicos da linguagem weberiana: a exploração dos silêncios; a tendência ao despojamento; a recusa da retórica. Mas ainda preserva um tom agressivamente passional, quase lírico que, no futuro, não estará mais presente nas composições muito cerebrais do autor.O timbre atualmente escurecido da voz de Eliane Coelho deu um relevo particular à sua leitura da música crepuscular das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss. Um tanto atropelada pelo andamento demasiado rápido, escolhido pelo regente para a primeira canção, foi a partir da segunda que Eliane começou realmente a demonstrar a familiaridade que possui com o idioma straussiano. Mas a grande cantora, e a intérprete de classe excepcional desabrochou de verdade na radiosa seção Und Die Seele, da terceira canção, Beim Schlafengehen, que se segue ao belo solo de violino que está no centro da peça: ali, a voz da cantora alçou-se e flutuou soberana, num momento de grande beleza. Depois disso, a pensativa visão da canção final encerrou da maneira mais delicada a apresentação desse que é um dos mais emocionantes ciclos vocais do século 20.A maneira como a Sinfônica Municipal executou a Sinfonia nº 9 em Dó Maior ?A Grande?, de Schubert, leva à reflexão sobre o estado atual da orquestra. A regência de ritmos demasiado marcados e incisivos de Rodrigo de Carvalho não abre muito espaço ao contraste e à sutileza; mas é clara e, à sua maneira analítica, ressalta devidamente as texturas peculiares dessa obra monumental. A resposta do efetivo, porém, não corresponde inteiramente às necessidades da peça pois, se as cordas são precisas e elegantes, é desigual o rendimento das madeiras, e problemática a participação dos metais - em especial de trombones, que soaram demasiadamente ácidos e truculentos.Um tanto niveladora, pela sua insistência em desenhar sempre com traços grossos, a abordagem de Rodrigo de Carvalho, funcional no caso do Andante-allegretto ma non troppo, foi bastante insatisfatória no Andante con moto que, apesar de seus ocasionais momentos de lirismo, devidos sobretudo às cordas, resultou muito arrastado. O movimento mais bem-sucedido foi o Allegro vivace intermediário, cuja energia, prenunciadora dos scherzos rústicos típicos de Bruckner, recebeu um tratamento convincente. Atacado de forma muito entusiástica, o poderoso Allegro vivace final foi executado com garra, em que pesem os desníveis entre os naipes, tão acentuados aqui quanto no primeiro movimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.