Quando a rebeldia é totalmente necessária

Em Calígula, Camus mostra como um dissidente pode ser importante

Miriam Chnaiderman, O Estadao de S.Paulo

08 de janeiro de 2009 | 00h00

A belíssima montagem de Calígula, que hoje retorna aos palcos de São Paulo, mostra-nos um Gabriel Vilela que consegue, na linguagem teatral, uma profunda fidelidade ao pensamento de Camus (1913-1960), filósofo e escritor que em 1938 escreveu esse provocante texto. Parece que, ao contrário de seus atores que, competentemente trabalham o tempo todo no distanciamento brechtiano, Gabriel Vilela encarnou Albert Camus, pensador do absurdo, que sempre se interrogou sobre a morte. Um Camus contemporaneizado, cujas ideias se expressam na construção cênica, na direção de atores, no cenário, nas roupas. No trabalho com a preciosa tradução de Dib Carneiro, cuja imponência Vilela quis manter, assim instaurando mais um estranhamento com a modernidade de sua direção. A fidelidade ao texto deixa de ser teórica, passa a ser visceral. Fidelidade expressa em uma não-sintonia do texto com a linguagem cênica. Mas, é exatamente de não-sintonia que se trata. Percebemos então um diretor movido pelo conceito de absurdidade, tão central no pensamento de Camus. A escolha de um desvelamento permanente do trabalho de ator, o escancaramento do fazer teatral, em um texto sobre a morte, sobre a revolta e a submissão, leva a estranhamentos emotivos, em encantamento inusitado.Absurdidade tem a ver com a cisão entre a vida e o homem, uma ausência de relação consigo mesmo que leva a uma vivência de um espaço esvaziado. No espaço de J. C. Serroni a busca da lua impossível leva a acontecimentos onde a vida se afirma através da mortandade, do assassinato desvairado. Vida absurda levando à morte absurda. A exaltação do movimento se dá através de uma coreografia onde o absurdo fica total. É onde o distanciamento brechtiano em um texto visceral ganha todo sentido.Albert Camus é conhecido como pensador existencialista, o que evidencia um desconhecimento das nuances que sempre acompanharam seu pensamento e que, depois da publicação de O Homem Revoltado levaram à ruptura com Sartre. Em Calígula o autor franco-argelino utiliza o imperador romano como porta-voz de uma desesperada visão de mundo para confirmar a transitoriedade do absoluto e as possibilidades destrutivas do poder. Não existem limites para que Calígula experimente manipular fraquezas e vilanias, as suas e as dos demais, num exercício de poder indiscriminado, reflexo da revolta contra o destino que roubou-lhe a irmã-amante. Camus transformou seu personagem em veículo da barbárie política, sendo o texto bastante profético em relação ao nazismo que então alcançava seu auge. Gabriel Vilela acentuou tudo isso, mascarando aqueles que se submetem ao tirano, fazendo-os de palhaços quando reforçam a mentira do teatro, ou de bonecos quando quer confundi-los com objetos vivos. O intendente do tesouro no reino de Calígula usa uma bolsa Nike, que torna-se parte da narrativa. Caricaturalmente usa o rosto pintado de verde (notas verdinhas) e fala com sotaque inglês no epílogo do espetáculo. Realmente, a fala de Calígula é de uma contemporaneidade ímpar : "O Tesouro? Realmente... Vejamos... Uma questão verdadeiramente capital..." Responde o intendente: "César: capital". Responde César Calígula: "O Tesouro deve, sim, supostamente interessar a todos. Tudo se relaciona ao Tesouro: as finanças, a ética pública, a política exterior, a subvenção do exército, as leis agrárias. Tudo é capital!". Essa alienação contemporânea tão bem nomeada em Calígula leva à cisão que instaura a absurdidade no mundo capitalista.Quando decidiu encenar Calígula, Gabriel Vilela teve enorme dificuldade para encontrar patrocinadores. Aliás, não fosse o Sesc, a peça não aconteceria. É que o filme de Tinto Brass levou a associar a figura de Calígula à pornografia e bacanais de uma Roma pagã. Em entrevista a Soraya Belusi Vilela, explica: "Ele escreveu essa obra como uma tragédia da inteligência". Lembra que na época em que o texto foi escrito, a humanidade tinha que conviver com a ascensão de três grandes tiranos: Hitler, Stalin e Mussolini: "Hoje, ao olhar para essa obra, não temos uma figura no mundo que sintetize essa força destruidora concreta. Mas podemos somar, numa mesma máquina, de um lado Bush e do outro Bin Laden, e ainda não atingimos Calígula", avalia. De fato, Gabriel Vilela vem se dedicando a encenar algumas tragédias da humanidade. O premiado Salmo 91, montagem que antecede Calígula, encenava o massacre do Carandiru, em dramaturgia de Dib Carneiro a partir do livro de Dráuzio Varela.Assim Vilela compara esses seus dois espetáculos, Calígula e Salmo 91: "Se pegarmos o Salmo 91 como exemplo, trata-se de um tema que é um vazamento de sangue que não foi controlado. O Calígula é uma matança que chega ao extermínio da humanidade em desejo". Vilela fala de sua origem barroco-mineira, ao seus primórdios de diretor junto ao grupo Galpão, nesses seus dois espetáculos ainda trata-se de uma "hemorragia, como a dos Cristos do Aleijadinho". Mas, continua: "Só que agora eu não pinto mais a igreja inteira, me contento com o céu. Isso é síntese, estou ficando velhinho. Não tenho mais a febre da mocidade de querer botar minha Minas inteira nos espetáculos".Mas, a agilidade de Gabriel Vilela, característica de todas suas encenações, também está presente em Calígula. As referências são múltiplas, e tanto o cenário quanto o figurino nos falam de um barroco inerente a Vilela. Há um barroquismo visual que logo se desmancha em ironia e humor, mostrando um momento de busca de novas linguagens. Essa busca já estava presente em Salmo 91 onde os atores pouco se movimentavam e o cenário era bastante árido. Em Calígula, J.C. Serroni colocou uma linda lua negra, em uma referência clara a Anish Kapoor e preencheu o espaço com biombos-espelhos, que se transformam em lagos e leitos de vida e morte. Há uma intensa iluminação que juntamente com a belíssima trilha sonora são personagens atuantes. O corpo dos atores são desenhados durante todo o espetáculo, o sangue é sempre cuidadosamente esparramado nas supostas feridas, em uma necessidade de não dissimular nada. Os atores se mostram atuando o tempo todo, teatralizando o discurso. O que realmente leva a colocar o foco nas palavras, intenção explícita de Vilela.Surpreende a atuação de Thiago Lacerda. Assim se refere a ele Gabriel Vilela: "O Thiago (Lacerda) não se veste de imperador romano, à moda brechtiana, ele é um cara que diz ?sou um ator, estou aqui dizendo politicamente para vocês que essa força destrutiva, essa pulsão de morte, está metabolizada num sistema perverso que hoje dá sinais de colapso?. A movimentação de Thiago/Calígula é maneirística, representando uma fábula de seus movimentos internos. Ele conta quem é Calígula, ele não atua Calígula. E é maravilhoso no que faz. Mas, aí já está algo desruptor, pois Thiago Lacerda é muito mais conhecido por seus papéis globais. Já aí se explicita a intervenção no mundo que a peça realiza, o encontro com o inesperado e surpreendente". Tanto a peça Calígula quanto o ensaio teórico de Sísifo foram escritos por Camus nos primórdios da 2ª Guerra Mundial. Nos dois textos já é possível entrever o que levaria à ruptura com Sartre, quando da publicação de O Homem Revoltado em 1951. Para Camus, os fins não justificam os meios, e a cisão com Sartre ocorre a partir de sua crítica ao stalinismo. Para Camus, o homem rebelde não pode ser Deus. Também não pode aceitar matar ou mentir, posto que o movimento inverso que justificaria o assassinato e a violência destruiria também as razões de sua insurreição. Mas, a rebeldia é absolutamente necessária.O que encanta é ver, em uma peça que denuncia a perversão do poder em um mundo regido pelo capital, o quanto os atores abrem espaço para Thiago Lacerda, em um respeitoso reconhecimento de seu brilho. Pascoal da Conceição, Rodrigo Fregnan, Jorge Emil, Magali Biff, Pedro Henrique Moutinho e Ando Camargo deixam que Thiago/Calígula os conduza, em um sutil jogo entre o teatro e a vida. Aliás, é frase de Calígula/Camus/Vilela: "o maior equívoco dos homens é não acreditar no teatro". Em um mundo cada vez mais regido pelo absurdo e desesperança é um alento assistir a esse espetáculo. Miriam Chnaiderman é psicanalista, documentarista e ensaístaServiçoCalígula. 100 min. 14 anos. Sesc Pinheiros (700 lug.). Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 20. Até 22/2

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