Quando a felicidade conjugal é só verniz

Em Foi Apenas Um Sonho, o comentário das fissuras no modo de vida americano

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

Depois do romance adolescente de Titanic, a dupla Leonardo DiCaprio-Kate Winslet volta em drama bem mais adulto e consistente. Foi Apenas Um Sonho, "tradução" que arranjaram para Revolutionary Road, é dirigido por Sam Mendes, de Beleza Americana e Estrada para a Perdição. Mendes não é exatamente uma unanimidade crítica - o que talvez seja uma vantagem. Há quem o recrimine por caprichar mais na cobertura do que no bolo, ou seja, de fazer filmes em aparência profundos, mas sem grande substância. Talvez seja apenas implicância. É provável que seja isso mesmo. Veja o trailer do filmeDe qualquer forma, mesmo quem tenha restrições a Beleza Americana terá a chance de reformular julgamento com este Foi Apenas Um Sonho, em aparência um projeto mais simples. DiCaprio e Kate fazem um casal nada romântico. Frank e April Wheeler, bonitos e bem postos na vida, têm dois filhos e casa adorável. Só que desejam mais; e não sabem exatamente o que desejam. Frank é infeliz pois se julga superior ao emprego que tem. Trabalha na mesma firma onde o pai atuou durante muitos anos e acha sua ocupação um tédio só. Um dia, no passado, ele conheceu Paris e firmou convicção de que lá é que se vive a verdadeira vida. Naquele cotidiano modorrento, no subúrbio de Connecticut dos anos 50, vegeta-se. Entre tapas e beijos, o casal decide que talvez seja a hora de arriscar alguma coisa na vida. Pegar a prole, vender tudo o que têm, incluindo a casa, e mandar-se para Paris. Eis a trama mínima do filme.Essa modéstia esconde uma grande ambição. De maneira sutil, Sam Mendes procura penetrar na intimidade da aparentemente sólida instituição familiar - exatamente para implodi-la, como fizera em Beleza Americana. É extraordinário que não se consiga ver o que há de corrosivo em Foi Apenas Um Sonho. A começar pela atuação da dupla. Inútil dizer que ambos parecem superficiais, pois o que os acomete é, de fato, a doença da superficialidade. Seria como acusar Flaubert de haver desenhado personagens idiotas em Bouvard e Pécuchet, ou uma ambiciosa como Emma Bovary em seu romance mais famoso.De certa forma, Foi Apenas Um Sonho é também uma obra sobre a ambição, sobre a avaliação desmedida de si, como Madame Bovary. O casal Wheeler nada tem de especial, é perfeitamente normal e medíocre. Ambos acham-se destinados a algo superior ou, pelo menos, diferente. No caso, a poética perspectiva de morar em Paris, ler, escrever, estar em contato com a arte e com a inteligência. Com o glamour. O contraste com a vida perfeitamente interiorana do subúrbio americano é terrível. Mesmo porque, o casal Wheeler parece, ele próprio, muito bem integrado ao seu meio. É suburbano até a medula. Porém sonha com a metrópole, enquanto vai tocando a vida em empregos medíocres, entre brigas e reconciliações e ocasionais traições.O estilo visual buscado evoca uma paisagem idílica - a casa branquinha, sem cercas, rodeada de verde. Tudo é claro, limpo, bem definido. Em absoluto contraste com as almas em permanente ebulição, formulando desejos de alguma forma tão indefinidos que não se sabe como poderiam ser satisfeitos. Mesmo porque por trás da placidez da jovem e otimista família americana existem rachaduras impossíveis de serem ocultadas.Alguns personagens secundários dão força a esse drama do senso comum lutando contra si mesmo: Kathy Bates, como a expressão da voz sensata e vazia, e seu filho John (Michael Shannon, indicado para o Oscar de coadjuvante), como o "louco" que é o único a enxergar a verdade da situação. O mal-estar que se possa sentir não é um defeito do filme; é, antes, o núcleo do seu projeto. ServiçoFoi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road, EUA-Reino Unido/2008, 119 min.) - Drama. Dir. Sam Mendes. 16 anos. Cotação: Bom

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