Quando a escola é um microcosmo

No cinema, instituição é vista como representante da sociedade em seu conjunto, mas sua imagem varia com o tempo

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

Não é de hoje que o cinema encontra na escola não apenas um bom tema mas um "ambiente" para representar a sociedade em seu todo. Uma espécie de microcosmo ideal, já que, em tese, todos passam pelos bancos escolares durante largo período da vida e, justamente, naqueles chamados anos de formação, em que se definem contornos e os limites de cada personalidade individual. Na França, em particular, a escola, como cenário, está inscrita na própria história do cinema moderno, já na figura de um dos seus pais tutelares, Jean Vigo. Seu Zéro de Conduite (Zero de Comportamento), média-metragem de longuíssima influência, põe em xeque exatamente o relacionamento entre crianças rebeldes e seus autoritários mestres e diretores. Vigo era um libertário, não fosse ele filho do anarquista Almereyda - pai e filho, aliás, objetos de estudo de Paulo Emilio Salles Gomes que, sobre eles, escreveu livros fundamentais. Zero de Comportamento se rebate no primeiro filme de Truffaut, obra inaugural da nouvelle vague, o autobiográfico Os Incompreendidos. Nele, Truffaut, usando seu alterego Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) fala de sua juventude problemática, com graves problemas familiares e, também, claro, escolares. De certa forma, foi o cinema que salvou Truffaut, foi sua "escola" de vida. Uma escola em todo contrária àquela instituição repressora que aparece na vida do jovem Doinel. Um mestre benigno, mas muito mais ligado à realidade que à fantasia, aparece em Ser e Ter, o documentário de Nicolas Philibert sobre crianças que vivem longe do mundo urbano e têm a sorte de encontrar um professor de extraordinária dedicação para abrir-lhes o caminho do aprendizado e da socialização. Aqui não há sombra de idealização da figura do mestre, mas retrato de idealismo. No Brasil também a escola andou figurando como tema de filmes recentes, como é o caso do ótimo documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. Através da escola, o diretor procura retratar as disparidades sociais do País. Opera pelo contraste, ouvindo alunos de classe média alta em São Paulo e estudantes de estabelecimentos carentes do Nordeste. Há contraste, mas também pontos de convergência entre eles. O tema reaparece no recente Verônica, de Maurício Farias, com Andréa Beltrão no papel-título. Ela é uma professora exausta, que tenta salvar um aluno cuja família foi massacrada por traficantes. O garoto (Matheus de Sá) corre perigo, pois carrega um pen drive com informações comprometedoras para os bandidos. Na superfície, a trama é policial; o pano de fundo é composto por uma escola problemática, com alunos assustados e professores cansados. Um retrato bastante realista da escola pública brasileira. E reafirmação do papel do professor como sucedâneo do protetor e das figuras paternas. Se a escola continua hoje a funcionar como microcosmo das condições sociais, o papel do professor parece se deslocar um pouco. De figura exclusivamente repressora ou redentora, torna-se um protagonista necessariamente ambíguo em uma época conturbada. Como em Entre os Muros da Escola, de Nicolas Cantet, ele vive impasses semelhantes aos de seus alunos. É parte do problema. E também da solução possível.

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