Quando a classe média tenta se enxergar

Problemas técnicos fizeram da sessão de Praça Sanz Peña, do diretor Vinicius Reis, uma experiência torturante. A cópia digital estava "muito densa", de acordo com os técnicos do festival, o que redundou numa projeção escura, quase indefinida nas cenas noturnas. E opaca, nas diurnas. Dificilmente um filme nessas condições pode ser avaliado, o que deve ser levado em consideração pelo júri. Do que se pôde ''deduzir'' (o verbo é esse), trata-se de um filme sensível, com uma dramaturgia simples, que trata da pequena classe média urbana carioca. Chico Diaz e Maria Padilha fazem Tereza e Paulo, casal que sobrevive com dificuldade, ele sendo professor e, claro, ganhando pouco. Até que surge a oportunidade com a qual sonhava havia muito - transformar-se em escritor. Um editor o convida para escrever um livro sobre o bairro - a Tijuca - e lhe dá um prazo exíguo para entregar os originais. A vida de Paulo se transforma e ele passa a dar atenção nula à filha adolescente e, sobretudo, à mulher. A estratégia narrativa permite ao diretor Vinícius Reis assumir por vezes postura documental, ele que é documentarista de origem, autor do muito bom A Cobra Fumou, sobre o exército brasileiro. Como quando, por exemplo, o escritor vivido por Chico Diaz entrevista o compositor Aldir Blanc, morador histórico da Muda, na Tijuca. Enfim, pelo que foi dado ver, o filme tem qualidades. Entre as quais, uma originalidade no quadro do atual cinema brasileiro: é um olhar sobre a classe média, vista do seu interior. "Não tive nenhuma dificuldade com esse filme, pois, apesar de ser nascido em São Paulo, criei-me na Tijuca", diz Vinícius. "Vive aquele ambiente, a economia diária, o sonho da casa própria, tudo isso." Mas essas qualidades potenciais de Praça Sanz Peña não mudam o perfil desta edição da mostra pernambucana de longas-metragens, de nível médio até agora. Nenhum dos filmes apresentados é desastroso; nenhum deles brilha de maneira excepcional e muito menos conquistou o público que frequenta o Cine Teatro Guararapes. Aliás, tem acontecido algo que pode ser visto como sintoma desse perfil. O público tem superlotado o cinema (com capacidade de 2,4 mil pessoas) para a exibição dos curtas-metragens. Mas, no intervalo, metade, ou mais, da plateia vai embora e não fica para assistir aos longas-metragens, que, em tese, são a grande atração dos festivais de cinema. Esses humores do público podem ser fruto de coincidência; podem ser resultado do adiantado da hora. Mas podem também refletir o contraste entre o nível dos curtas e o dos longas até agora apresentados. Se estes têm sido apenas medianos, é na seção de curtas (digitais e em película) que a qualidade e a inovação têm se abrigado. Na própria sessão de curtas que precedeu a desastrosa projeção de Praça Sanz Peña, isso também aconteceu, com a exibição concorrentes de bom nível. São os casos de Superbarroco, Nós Somos um Poema e, em parte, Os Sapatos de Aristeu. Superbarroco, dirigido por Renata Pinheiro, joga com o real e o imaginário através de um personagem (Everaldo Pontes, ótimo) fascinado pela cantora Dalva de Oliveira. Venceu o Festival de Brasília do ano passado e será exibido agora no Festival de Cannes. Os Sapatos de Aristeu, de Sergio Luiz René Guerra, traz a história da família, mãe e irmã, que decide enterrar como homem o filho travesti. O documentário Nós Somos um Poema conta a história de uma parceria pouco conhecida entre os geniais Pixinguinha e Vinicius de Morais, que fizeram as músicas para o filme Sol Sobre a Lama, de Alex Viany. Na noite anterior havia sido exibido Tereza, de Renata Terra e Paula Szutan, outro bom título da mostra de curtas. Fala da personagem (interpretada por Sabrina Greve, de Uma Vida em Segredo, de Suzana Amaral), que desembarca na rodoviária de São Paulo para se encontrar com o noivo, só que ninguém à espera. A não ser a dureza da vida na cidade. Um filme com sensibilidade feminina.

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