Mike Bink/The Rembrandt House
Mike Bink/The Rembrandt House

Qual é o legado de Rembrandt 350 anos depois de sua morte?

Museus de todo o mundo estão promovendo exposições para lembrar o legado artístico e a vida do genial pintor e gravurista

Nina Siegal, The New York Times

11 de março de 2019 | 03h00

Como Rembrandt morreu? Considerando-se que ele é um dos nomes mais famosos na história da arte, é surpreendente que não saibamos. Ele tinha 63 anos, mas os estudiosos dizem que não há registro de nenhuma doença. Poetas podem dizer que morreu de tristeza, um ano após a morte de seu único filho sobrevivente, Titus. 

Embora Rembrandt desfrutasse de fama mundial durante a vida, ele gastou muito além de seus meios, pediu falência e terminou vivendo de uma insignificância. Foi enterrado num túmulo alugado e sem identificação. Mais tarde, seus restos foram desenterrados e destruídos. Não há registros de sua derradeira sepultura. Vamos lembrar um pouco a morte de Rembrandt, ocorrida há 350 anos, em 1669. Museus de todo o mundo estão promovendo exposições para lembrar seu legado artístico e uma vida que está longe de ter sido uma obra-prima.

Com todo o renovado foco nesse pintor, gravador, gravurista, desenhista industrial, amante, guerreiro, gênio e devedor, vale perguntar: quem é Rembrandt hoje? Como interpretar a vida e obra desse mestre da Idade de Ouro holandesa, que conheceu grande fama, mas também saiu de moda enquanto ainda vivo e vem sendo ressuscitado sucessivamente por diferentes gerações de amantes da arte, que encontraram novo significado em seu trabalho? 

“Poucos conhecem a história da vida de Rembrandt”, disse Taco Dibbits, diretor do Rijksmuseum, o museu nacional da Holanda, que sedia a principal mostra das comemorações, All the Rembrandts, até de 10 de junho. Todo o acervo de obras de Rembrandt do museu – 22 quadros, 60 desenhos e 300 gravuras – está em exposição. Em paralelo à mostra, é lançada uma nova biografia do artista, Rembrandt – Live of a Rebel (Rembrandt – Vida de um Rebelde), de Jonathan Bicker.

“Toda geração tem seu próprio Rembrandt”, afirmou Gregor J.M. Weber, chefe do departamento de fine art e arte decorativa do Rijksmuseum. “Há 80 anos, as pessoas amavam Rembrandt como o velho da alma, o homem solitário que atingiu o mais alto ponto da arte”, lembrou. “Hoje, pensamos em Rembrandt mais como um rebelde, que sempre se reinventava e mudava seu modo de fazer as coisas. Ele lutou contra si mesmo e os padrões de sua época.”

All the Rembrandts acompanha o progresso do artista desde o início da carreira, em Leiden, Holanda, até seu último quadro, feito dias antes de sua morte. A mostra começa numa sala com 30 autorretratos, que permitem olhar nos olhos do artista e acompanhá-lo desde um jovem de cabelos encaracolados aos 22 anos a um homem envelhecido e de olhar preocupado aos 55. Vemos também como seus primeiros esboços e gravuras de mendigos, mulheres seminuas e sanfoneiros se transformam mais tarde em figuras que povoam suas cenas bíblicas. Podemos ainda comparar os pequenos retratos de pessoas comuns, que ele rabiscava em placas de metal, com os grandes quadros a óleo de ricos mercadores e nobres de Amsterdã, com os quais ganhava a vida.

Outras exposições pelo mundo mostram trechos de sua carreira. O início é visto em Young Rembrandt 1624-1634, apresentada primeiramente no Lakenhal Museum, em Leiden, e posteriormente no Ashmoleam Museum, na Inglaterra. Já seu sucesso como jovem artista está em Leiden Circa 1630 – Rembrandt Emerges, no Agnes Etherington Art Center, de Ontário.

No Rembrandt House Museum, em Amsterdã, aprendemos sobre as ligações pessoais do artista em Rembrandt’s Social Network – Family, Friends and Acquaintances. No Fries Museum, em Leewarden, Holanda, sua vida romântica aparece em Rembrandt and Saskia – Love and Marriage in the Dutch Golden Age. Há ainda exposições, durante todo o ano, no Thyssen-Bornemisza Museum, de Madri, no Museu Britânico, em Londres, no Mauritshuis, em Haia, e no Louvre Abu Dabi, entre outros. 

Tantas mostras simultâneas só são possíveis graças à impressionante produção de Rembrandt em 50 anos de carreira: cerca de 350 quadros, 300 gravuras e mais de 100 desenhos. 

Thomas Kaplan, empresário americano que tem 17 quadros do artista, contou que vê Rembrandt como “o artista que libertou outros artistas para ser tornarem expressionistas, cubistas, o que quisessem ser”. 

Já o poeta e dramaturgo setecentista Andriels Pels descreveu, em 1681, Rembrandt como “o grande herege da arte”, porque “não usou Vênus gregas como modelos, preferindo lavadeiras e vendedores de trufas”, segundo a biografia de Bicker. Para o biógrafo, é essa exatamente a fonte do inesgotável fascínio de Rembrandt. “Ele procurou mostrar a verdade sem se prender às leis da arte.”

Rembrandt trouxe de volta a pintura para a terra, em parte por suas origens humildes. Era o quinto dos dez filhos de um moleiro de Leiden. O filho mais velho herdaria o moinho, o que levou Rembrandt a ser aprendiz de um pintor aos 15 anos, sendo reconhecido como prodígio por um dos mais poderosos marchands da Holanda. Em 1631, ele se mudou para Amsterdã, aos 26 anos, para dirigir um ateliê. 

Casou-se com a prima e marchand Saskia van Uylenburgh, uma mulher rica, e tiveram quatro filhos, mas só um sobreviveu. Quando seu filho Titus nasceu, Saskia adoeceu e morreu meses depois. Nessa época, Rembrandt terminou seu quadro mais conhecido, A Ronda Noturna.

Sabendo de sua atração pelas mulheres e de sua prodigalidade com dinheiro, Saskia estipulou que ele só herdaria sua fortuna se nunca mais se casasse. Seus dois relacionamentos seguintes terminaram tragicamente. 

Segundo Taco Dibbits, as pessoas vão entender neste ano de exposições que Rembrandt “foi obcecado em pintar o mundo a seu redor como ele era de fato”. “Ele ficou mais próximo do mundo ao envelhecer”, acrescentou. “A obra de Rembrandt é um tributo à humanidade e a nós todos como seres humanos.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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