Público vai ao céu e inferno na noite

Desorganização na chegada e na saída da Chácara do Jockey pesou contra o festival que teve um dos melhores shows do ano

Livia Deodato e Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

24 Março 2009 | 00h00

Pode parecer um clichê, mas a verdade é que o público deu um espetáculo à parte no gramado da Chácara do Jockey. Todo mundo sabia qual era a música que estava começando, mal o Thom Yorke dava umas batidas no violão. Parecia aquele programa de auditório do Silvio Santos no qual ele pergunta quantas notas o sujeito quer para descobrir "Qual É a Música" e o sujeito pede apenas uma nota. O pianista faz plim e ele diz: "Sonata nº 2 para Violino e Piano, de Alfred Schnittke." Público bacana, tratamento não tão bacana para ele. Gabriela Mori, analista de qualidade e treinamento do Yahoo, só conseguiu chegar em casa três horas depois de terminado o show. "Para quem veio de carro, o trânsito estava caótico; para quem veio sem carro, e muita gente optou por isso, foi ainda pior: ônibus lotados que não paravam nos pontos e táxis que muitas vezes se recusavam a levar passageiros se a corrida ?não valesse a pena?", ela lamentou. Por conta da falta de transporte, muita gente resolveu andar a pé pela Avenida Francisco Morato para ver se conseguia alguma alternativa numa região um pouco além do local do show. A caminhada podia durar quilômetros. Táxis vazios eram raros. Uma executiva, que preferiu não se identificar, contou que um policial militar deu uma sonora risada quando ela perguntou onde poderia encontrar um táxi. Muita gente se cansava, depois de 22 horas na Chácara do Jockey, e alguns até se aventuravam no meio da rua tentando parar táxis que já estavam com passageiros. Outros desistiram e sentaram-se nas calçadas para esperar o fluxo de pessoas acalmar. Aliás, vários radiotáxis não davam previsão de quando poderiam pegar os passageiros. A analista Gabriela Mori conta que "tinha tanta gente andando no escuro à procura de transporte que parecia uma romaria". Houve uma notícia, não confirmada pela polícia, de que 50 carros foram arrombados nos estacionamentos vizinhos ao evento. As pessoas tiveram de fazer imensas filas para comprar cerveja e pizzas, mas isso não é algo tão incomum em megashows como esse. O problema é que a comida acabou e muita gente ficou no balcão reclamando com os tickets na mão. Mas o público que chegou cedo também teve suas compensações. Às 17h37, quem estava dando bobeira na lateral esquerda de quem via o palco entrou em êxtase: Thom Yorke, o profeta do pop em pessoa, desceu uma rampa, como quem não queria nada, para dar uma conferida no público que o aguardava ansioso. Pouquíssimos olhares atentos notaram a caminhada do vocalista na ida - em compensação, na volta, gritos, pulos e acenos com as mãos nem puderam ser percebidos por Yorke, já que um segurança o acompanhou e quase tapou a visão do franzino band leader. Nicolás Flores, de 27 anos, chamava a atenção pela ostensiva bandeira uruguaia que segurava no meio da multidão. Nascido em Montevidéu e criado em Londrina desde os 5 anos, o professor de História enfrentou uma viagem de oito horas dentro de uma van apertada, cheia de amigos do lado Sul do País. Foi impedido de entrar com um bambu especialmente preparado para segurar a bandeira. Quebrou o galho com um ramo caído de uma árvore. "Somos todos cosmopolitas e latino-americanos. E ainda, por cima, essa bandeira serve como ponto de referência." Muitos nordestinos vieram ao festival. Uma galera de Fortaleza, Ceará, cerca de 15 amigos, não conseguia conter a animação minutos antes de o show começar. Isabel Bessa, de 23 anos, e Gerson Amaral, de 25, contaram que não houve uma mobilização tão grande assim nem para os shows da Madonna na turma deles. "Minha chefe pediu para eu não me matar durante o show do Radiohead", brincou outra amiga, a fotógrafa Natalia Kataoka, de 22 anos, que aguardava de mãos suando os primeiros acordes de Jigsaw Falling into Place, do álbum In Rainbows.

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