JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Público aprova a política na Bienal de Artes

Aberta no sábado, a mostra internacional atraiu atenção por obras que tratam de conflitos sociais e religiosos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2014 | 18h46

A 31ª. Edição da Bienal Internacional de São Paulo, a mais politizada desde os anos da ditadura militar, atraiu bom público no primeiro fim de semana de funcionamento. Ainda não há dados oficiais sobre o número de pessoas que visitaram a mostra no sábado e no domingo, mas já é possível eleger três obras entre as que chamam mais a atenção do público: o filme Inferno, da israelense Yael Bartana, como previu o Caderno 2, lidera a lista, seguido de Línea de Vida, instalação do filósofo peruano Giuseppe Campuzano (1969-2013), sobre a vida de travestis, transexuais e andróginos do Peru, e Wonderland, vídeo do turco Halil Altindere que mostra ciganos fugindo da polícia enquanto um grupo de hip-hop denuncia a destruição de assentamentos históricos de Istambul para dar lugar a empreendimentos imobiliários de luxo.

De modo geral, os vídeos despertam maior interesse nesta Bienal, a despeito de exigir do público mais atenção e tempo. Além das obras anteriormente citadas, uma que tem provocado discussão é a instalação participativa Errar de Dios, do grupo argentino Etcétera, que se apropria da obra Palabras Ajenas, de León Ferrari (1920-2012), para discutir a relação entre religião e política, isto numa época de eleições e com uma candidata evangélica à presidência . Na instalação, o público pode fazer intervenções espontâneas, sobrepondo sua voz a um texto gravado com as vozes do papa e Angela Merkel, entre outras.

O relações públicas Raphael Carapial esteve na sala de Leon Ferrari e do Etcétera. Ao sair desse “tribunal”, que julga personagens públicos, ele teve a oportunidade de ver as intervenções iconoclastas de Ferrari nas imagens santos e santas de Igreja católica, que foram consideradas blasfemas quando o papa Francisco ainda era cardeal em Buenos Aires. O visitante não se chocou. “Especialmente agora, quando a política está tão próxima da religião, essa obra coloca em pratos limpos essa relação”, disse Carapial.

A religião institucionalizada é o foco do filme israelense Inferno, rodado em São Paulo pela cineasta Yael Bartana. O foco é a réplica do Templo de Salomão pela Igreja Universal do Reino de Deus, vista como uma tentativa de criar uma manifestação religiosa de caráter híbrido, disposta a atrair fiéis de outras religiões seminais, competindo com elas. O documentarista Fábio Bardella, que viu ontem o filme, gostou do modo como Bartana “mostra o mercantilismo associado à fé”. Para ele, a construção do templo não está associada ao espírito que norteou os templos bílbicos arcaicos, mas ao fomento do “turismo religioso”.

Outra obra que provoca o público também está atrelada ao papel da religião. Línea de Vida propõe uma revisão crítica das relações perigosas entre Igreja e Estado, mostrando como os indígenas do Peru foram obrigados a aceitar a tutela católica e abandonar seus antigos rituais na época da colonização. A sala de Giuseppe Campuzano, em forma de espiral, mostra a evolução dos mecanismos repressores contra andróginos e travestis no Peru, apresentando como contraponto ativistas que concorreram a cargos públicos.

“Não sabia da existência do Museu Travesti do Peru e também me surpreendeu essa luta dos travestis para conseguir se eleger”, diz o professor de História Luís Valentim, carioca em visita à Bienal. O museu, na verdade, é portátil, e pode ser instalado em qualquer praça ou feira livre, ao contrário do Museu da Diversidade Sexual que São Paulo verá brevemente instalado na avenida Paulista, no antigo casarão Franco de Mello (o governo paulista já destinou R$ 1,1 milhão para o seu restauro).

A engenheira Samara Pineschi também ficou impressionada com a linha do tempo que acompanha a vida de travestis e andróginos no Peru. “Acho que é um bom retrato não só do fenômeno do travestismo, mas da relação que se estabelece quando o homem reconhece a cultura feminina e se identifica com ela”.

O elemento feminino, aliás, está ausente no vídeo Wonderland, do curdo Halil Altindere. Não há uma única mulher em qualquer cena, o que poderia amenizar a presença agressiva de policiais e hip-hops que fogem pelas ruas de Istambul. Nessa perseguição implacável, jovens de periferia defendem os assentamentos de Sululuke, em Istambul, que o novo governo quer transformar em bairros de luxo. O francês Fabian Mendes e sua namorada Bruna estiveram ontem na Bienal e viram o vídeo. “Fica bem clara sua mensagem, a de que a burguesia turca quer ter sob controle os jovens, mesmo que seja preciso usar a linguagem do gangasta rap para atrair os garotos”.

Percepções

"O grupo argentino Etcétera e León Ferrari colocam em pratos limpos a relação entre Igreja e Estado, especialmente visível nesta campanha política"

Raphael Carapial

RELAÇÕES PÚBLICAS

“Não estou chocado com a violência ou com a sala de León Ferria, mas com o mundo; a arte, hoje, está muito atrás da vida em matéria de choque”

Arthur Scarpato

PSICÓLOGO

“Não é a destruição do Templo de Salomão o foco de ‘Inferno’, mas a construção de um templo que cada um deve construir dentro de si mesmo”

Micaela Teixeira

TERAPEUTA

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