Provocação conceitual e busca do prazer estético

Centro Cultural São Paulo alia estímulo à criação artística com exibição de seu acervo em duas mostras

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Com a abertura simultânea de três novas exposições, o Centro Cultural São Paulo consolida sua estratégia de aliar o estímulo à criação artística com uma política de valorização e exibição de seu acervo. O primeiro evento do Programa de Exposições de 2009, bem como as mostras Cinema Experimental no Arquivo Multimeios e Objeto Imaginado também enfatizam, em seu conjunto, uma preocupação em adotar um projeto de estímulo a ações de caráter multidisciplinar.Cinema Experimental no Arquivo Multimeios, por exemplo, é resultado dessa estratégia e exibe, em monitores espalhados pelo espaço do centro, na Rua Vergueiro, uma dezena de obras hoje históricas, feitas em super-8 por artistas como Paulo Bruscky, Marcelo Nitsche e Nelson Leirner. Os trabalhos, como o registro de uma célebre intervenção feita por Bruscky no centro do Recife, interrompendo o fluxo de uma ponte com um simples laço de fita, como se a via fosse passar por uma espécie de reinauguração, foram localizados quase por acaso no arquivo de multimeios, onde são alocados normalmente registros e depoimentos e não obras de cunho artístico. A mostra Objeto Imaginado, um trabalho de curadoria desenvolvido por Paulo Monteiro, também é resultado de um retorno aos acervos do CCSP e acabou rendendo uma interessante investigação que aproxima artistas de diferentes gerações a partir de um mesma e conflitiva relação entre a representação visual e seu suporte. Numa seleção que reúne desde grandes nomes das décadas de 60 e 70 - podemos citar Lygia Pape, Cildo Meireles, Arthur Barrio e Antonio Manuel - até criações de jovens artistas contemplados mais recentemente com os prêmios de aquisição concedidos anualmente no âmbito dos Programas de Exposições, delineiam-se algumas questões bastante presentes na produção contemporânea brasileira, como uma interessante mescla entre provocação conceitual e busca do prazer estético. Há um indiscutível corte temporal. Quanto mais se recua no tempo, mais acirrado e direto o embate com temas como a morte da pintura e a crise da representação artística. Se nos trabalhos de algumas décadas atrás se coloca também uma marca de afirmação política - adotando uma atitude mais combativa, muitas vezes em oposição às restrições impostas pelo regime militar -, esse caráter de denúncia e acidez parece diluir-se quando nos aproximamos da virada do milênio. A reflexão sobre as potencialidades e limites do objeto continua, no entanto, mais do que presente, rendendo obras instigantes como os fragmentos arquitetônicos de Laura Huzak Andreato ou a fotografia de céu que mais lembra uma pintura monocromática de Kátia Prates. Como diz Monteiro, "com mais ou menos aspectos materiais, a parte boa da nova arte parece muitas vezes nos chamar a atenção para o lado incompleto e também negativo de seus objetos e propor a todo o momento uma relação com alguma outra coisa que não eles, como que nos estimulando à criação de um outro objeto, sem corpo, sem materialidade, um objeto imaginado".Os seis trabalhos exibidos nesta Primeira Exposição do edital de 2009 também acabaram ganhando com a proximidade da exibição do acervo, inserindo-se num contexto histórico e conceitual mais alargado. Do conceitualismo provocador de Paulo Nazareth e Alexandre Vogler, às investigações de Ricardo Carioba acerca do aspecto das telas apenas aparentemente brancas dos monitores de computador, destaca-se um desejo de atuar nos limites questionadores da arte. A escolha da pintura como linguagem - aliás com uma forte presença no edital deste ano - não desloca Alex dos Santos, Fernanda Eva e Flávia Metzler desse mesmo movimento de reflexão sobre os rumos e possibilidades da expressão artística. Muito pelo contrário. Os três acabam respondendo, na prática, à pergunta retórica mas instigante feita por Fernanda Eva no trabalho em vídeo que exibe ao lado de suas telas marcadas por uma certa ironia kitsch: Afinal, "por que o artista contemporâneo ainda pinta?"

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