Proust ri por último

No mesmo dia em que chega ao mercado o terceiro volume do monumental Em Busca do Tempo Perdido é lançado um livro que analisa o humor do escritor

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

No mesmo dia, 20, em que a finesse dos Guermantes ocupa as livrarias com o lançamento de O Caminho de Guermantes (Editora Globo, 692 págs., R$ 42), terceiro volume da edição revista pela filósofa Olgária Matos de Em Busca do Tempo Perdido, sua comadre e doutora em Literatura Leda Tenório da Motta lança, na Livraria Cultura, um livro destinado a provocar discussão entre ''''marcelistas'''', Proust: a Violência Sutil do Riso (Perspectiva, 256 págs., R$ 46). É o trabalho de tese de doutoramento defendida por ela na Universidade de Paris, sob a orientação de Julia Kristeva. Nele, a professora sustenta que o gênio proustiano é cômico, movido pela tradição do humor judaico. É uma tese rara que pisa em terreno minado. São poucos os estudos sobre o humor de Proust numa fortuna crítica de quase um século.O livro vai na contramão da leitura mais convencional feita do romance de Marcel Proust desde sua morte, em 1922, a da volta ao passado com ajuda de uma madeleine, veículo de uma epifania que salvaria o escritor pela arte. A autora rejeita a valoração cristã de Em Busca do Tempo Perdido, buscando na galeria de personagens do romance exemplos cômicos de uma narração sobre sua gênese e diversidade sexual, nesse livro que é um cruzamento híbrido de ensaio, autobiografia, diário e crônica.A madeleine, sustenta a professora, é um clichê dos estudos proustianos, como já notou sua orientadora Julia Kristeva em Le Temps Sensible. As leituras que atribuem um papel redentor à memória, argumenta ela, ''''fazem tábula rasa da decomposição geral promovida pelo tempo proustiano em que menos se presta atenção no romance: o tempo que passa, que se perde''''. A madeleine mergulhada no chá se desfaz, se desintegra. Não é mais uma metáfora do tempo, mas da escritura, ''''um trabalho de criação que passa pela destruição'''', segundo Philippe Willermart. Sobre Proust e seu riso avassalador a professora falou ao Estado, na entrevista a seguir.Uma pergunta freqüente que se faz sobre Em Busca do Tempo Perdido é por que Proust não adotou um narrador gay ou judeu. A senhora concorda com Harold Bloom quando ele diz que sua literatura não nasceu como uma âncora coletiva de culturas particulares?Proust, segundo Bloom, vê a cultura judaica de fora, como se não estivesse concernido por ela. Mas o que ele diz em seguida é justamente o que eu penso: por estar de fora, Proust pode ver melhor, com mais liberdade e com aquilo que eu digo em meu livro, a violência sutil do riso. Não se trata de se preservar para poder rir do outro enquanto gay, mas de dispor para os leitores da época uma novidade, uma comédia pronta a ser assistida. É o caráter do observador externo que permite a Proust colocar o dedo nas feridas, não só da homofobia como do anti-semitismo. Ele é mais interessante que André Gide, em que as coisas são mais diretas, lineares e quase propagandísticas, embora Gide tenha sido um escritor genial. A literatura de Gide, seu contemporâneo, é uma literatura de comentário direto. Fala com certo conforto de ser gay. Faz uma literatura gay de confissão, enquanto a de Proust é toda enrustida. O que Deleuze vai dizer depois é que Gide trabalha com uma homossexualidade grega, tranqüila, sem conflito, enquanto Proust trabalha com uma homossexualidade bíblica, amaldiçoada.A senhora cita Gide, que poderia ter sido o primeiro editor de Proust, não fosse o equívoco de vê-lo como frívolo. Como explicar essa resistência?Pelo impacto absoluto da superioridade do Proust. Haroldo de Campos, um poeta e intelectual brasileiro sobre o qual pesou - e talvez ainda pese - um veto, dizia que, quando se está acima da curva acústica de teu tempo, ninguém te escuta e você parece ruim mesmo. Proust estava tão acima daquela curva acústica de bons escritores - perto dele médios -, que ninguém entendeu nada, a começar por Gide, que foi um dos mais bravos e brilhantes escritores, mas aquém da virada proustiana.A despeito disso, Gide toca nas mesmas questões de Proust. Ao que a senhora atribui a falta de identificação imediata de Gide?Antes de me interessar pela questão inabordada do humor, da gargalhada satânica, em Proust, tento fazer uma espécie de arqueologia do romance para mostrar de que linhas de força da literatura francesa Proust saía: a dos escritores de salão, dos velhos dinossauros, que é o mundo do Anatole France, hoje esquecido. São os escritores que se fazem sob o apadrinhamento dos ricos, dos grã-finos e dos aristocratas. Há também um outro nicho, que é o do Zola. Ele pertence a uma linha de escritores que não freqüentam a alta sociedade mas que vivem do que escrevem, que saem das camadas burguesas. Há também a nata da Gallimard, que acabara de ser criada e se contrapunha à velharia dos salões, aos medalhões, jovens escritores chefiados por Gide, gay que viaja pelo mundo à la grega e se permite altas liberdades de comportamento e pensamento. Proust procede de todos esses nichos, paga uma dívida com todos eles e se afasta de tudo para pensar a literatura: é um escritor que escreve sobre o romance, não um escritor que escreve um romance.Proust, como meio-judeu, não assimilou os valores religiosos do judaísmo, mas parece ter defendido o capitão Dreyfus também como uma forma de contestar a autoridade do pai, francamente antidreyfusiano. A adesão à causa de Dreyfus teria sido mesmo uma contestação ao pai?Em Proust é tudo misturado, retorcido, torturado, complicado. Tem esse lado mesmo da mãe, que funciona como uma espécie de grande clichê sobre Proust ao lado do clichê da madeleine, que faz voltar o tempo perdido e dá uma sensação de eternidade. Tento mostrar que não é nada disso, que ali o lance da falta é muito maior que o sentimento de eternidade. O outro clichê é de um cara muito ligado na figura da mãe, ligação à qual muitos atribuem a sufocação asmática. É tudo tão sem intervalo que não dá para respirar. Não dá para ser dois corpos e, portanto, eu não respiro. Essa é uma das interpretações da asma proustiana. É natural que a gente pense que uma pessoa tão ligada à mãe tome o caminho da cultura materna quando essa cultura se vê tão injustiçada e atacada nesse episódio que é o coroamento do anti-semitismo moderno, que começa com os pogroms na Rússia do início do século 19, passa pela perseguição a Dreyfus e vai dar em Auschwitz. Pode ser, portanto,uma adesão ao lado familiar mais prezado, que é o da mãe, o lado da escritora, da mulher culta. Alguns psicanalistas levantam essa dúvida de que por baixo disso tudo estaria uma briga com o pai médico. Com enorme desprezo ele ataca os médicos e o linguajar dos médicos em Em Busca do Tempo Perdido. Bataille, em A Literatura e o Mal, levanta essa pequena suspeita.Como Proust defendeu Dreyfus?Sabe-se tudo sobre o papel de Zola, mas muito menos de Proust, que, antes de Zola, fez passar abaixo-assinados pedindo a assinatura dos intelectuais em favor da revisão do caso Dreyfus. Ele convence intelectuais importantes e muito mais bem instalados do que ele, como Anatole France, a tomar o lado da defesa de Dreyfus e do que se chama de revisionismo. Proust é um dos primeiros formuladores da necessidade da revisão e um dos primeiros defensores do Dreyfus. Isso está dentro e fora do romance porque não há diferença entre as duas coisas.

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