Proseando com Câmara Cascudo

Vida e obra do folclorista inspiram o premiado dramaturgo Vladimir Capella no juvenil O Colecionador de Crepúsculos

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

Um homem caminha com olhos e ouvidos atentos à sabedoria popular. Tem, e ensina, a consciência de que o ?causo? mais simplório, a lenda mais conhecida, a cantiga de roda ou o proseado do sertanejo são expressões da Cultura, transportam mitos através do tempos e revelam aspectos universais da condição humana. Esse homem é o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1918-1968), que ficou conhecido como folclorista, mas preferia ser chamado de professor, como se aprende no Teatro Popular do Sesi em O Colecionador de Crepúsculos.Cascudo, autor de mais de 150 livros, também era fino apreciador de fins de tarde, aspecto de sua biografia que o autor e diretor Vladimir Capella valorizou nesse espetáculo. Voltado para o público infantil, com apresentações grátis aos sábado e domingos, O Colecionador de Crepúsculos estreia hoje com 24 atores no elenco. O texto mescla aspectos essenciais da biografia de Cascudo com algumas histórias por ele recolhidas.É um prazer à parte nesse espetáculo apreciar, desde a primeira cena, a forma terna como o ator Luiz Damasceno se apropria com precisão de virtuose do proseado caipira, sem estereotipias ou caricaturas. Mesmo assumindo a criação de um ?tipo cômico?, ele não critica, mas torna fluida a linguagem quase poética de quem fala errado, porém com lógica pertinente.Seu personagem, extraído da narrativa O Compadre da Morte, que mescla elementos de alguns dos muitos contos populares sobre tentativas de enganar a morte, costura todo o espetáculo. Selma Egrei faz o papel dessa ?comadre? convidada, numa das primeiras cenas, a batizar o filho desse homem pobre de numerosa prole. Preste atenção no delicioso despudor com o que esse personagem cobra da ceifadeira de vidas um presente de madrinha.Além da já citada, estão no palco desde fragmentos de histórias até outras na íntegra, entre elas A Velha Amorosa, O Marido da Mãe D?Água, A Menina Enterrada Viva e A Formiguinha e a Neve. Esta última, encenada na forma de teatro de fantoches, resulta numa das cenas mais divertidas do espetáculo, desde a exploração irônica da repetição, passando pelo tom da voz infantil, até a gozação explícita dos mamulengos a aspectos ?importados? da Cultura europeia, como "a neve que prende o pezinho da formiga".O amplo leque de interesses de Câmara Cascudo se traduz nesse espetáculo que mescla desde sotaques - gaúcho, nordestino, mineiro - até manifestações da Cultura popular como bonecos gigantes, passando por ofícios como tocador de realejo ou amolador de facas. No palco, os atores cantam e dançam, o que permite alguns efeitos de conjunto muito interessantes. Cenografia e figurinos, assinados por J.C. Serroni, completam a escrita cênica. "O espetáculo quer ser a um só tempo homenagem a esse grande mestre e instrumento para mostrar a riqueza da cultura nacional de maneira lúdica", afirma Capella.

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