Profeta de um mundo dominado pelas trevas

Assim Vieira via o Brasil do século 17, defendendo índios contra colonizadores

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

02 Fevereiro 2008 | 00h00

Os sermões do padre Antônio Vieira, que atravessaram quatro séculos, parecem escritos sob medida para a sociedade contemporânea: falam de grandes impérios, de revoluções comerciais provocadas por uma nova ordem mundial e, principalmente, do reconhecimento da alteridade. No entanto, é preciso ler Vieira como um homem do seu tempo, para que ele não seja reduzido a um desastrado profeta. Se suas palavras ecoam no presente é porque muitas de suas críticas - à escravidão, à intolerância religiosa, ao preconceito étnico e à injustiça distributiva - continuam tragicamente atuais. Milhões de bípedes falantes que hoje usam telas de alta definição melhor fariam se lessem Vieira olhando para o passado - não para alimentar, como Vieira, a crença sebastianista no ''''quinto império'''', mas para aprender com sua história. Ou a história do Outro, uma vez que Vieira parecia ter plena consciência de falar em nome de Deus a um mundo corrompido pelo esvaziamento da palavra. No Sermão da Epifania, por exemplo, Vieira começa sua pregação avisando que não falará em nome do Evangelho. Até então, justifica, o estilo era que o pregador explicasse os textos evangélicos. Naquele dia de 1662, o Evangelho haveria de ser a explicação do pregador. Ele não iria comentar o texto. Era o texto que haveria de comentar Vieira. Uma das coisas mais notáveis que Deus revelou e prometeu, segundo o padre, foi criar um novo céu e uma nova terra. Assumindo o posto de um novo Isaías, Vieira profetiza, então, que esse mundo seria criado por Deus com a ajuda de seus patrícios portugueses. Assim, sem mais. Vieira estava convencido de que, depois dos assírios, dos persas, dos gregos e romanos, finalmente chegara a hora do português. Era ele o povo escolhido para assumir o timão de um planeta desgovernado. O Brasil era esse mundo em trevas de que falava Vieira em seu Sermão da Epifania. Tudo que havia ali era como se fosse nada, argumentava o padre. Os primeiros argonautas de Portugal chegariam para salvar aquelas ''''gentes estranhas e remotas'''' e acabar com as seitas infiéis desses pagãos que andavam pelados, às escuras, devorando bispos. Claro que Vieira ficaria conhecido como defensor dos índios - e protestou, de fato, contra a exploração dos primeiros habitantes do Brasil, comparando os nativos aos hebreus escravizados no Egito -, mas essa defesa tinha um preço, o da conversão. Índio bom era índio convertido, assim como o bom africano era o que repudiava as seitas pagãs para se aproximar da salvação. E como os escravos negros conseguiriam isso? Graças à ''''gente de melhores costumes, e verdadeiramente cristã'''', como diz o padre na sétima parte do Sermão da Epifania, em que condena ainda os governadores das províncias por importar criminosos e malfeitores para povoar o Novo Mundo. Há quem defenda ser esse seu fervor missionário fruto de uma manifestação paranóica, como a psicanalista e professora de literatura Nádia Paulo Ferreira, autora de livros sobre Freud e Lacan. Num ensaio sobre o padre, ela diz que é possível encontrar na obra de Vieira uma série de temas paranóicos, desde ilusões megalomaníacas de grandeza (como o ''''quinto Império'''' dos portugueses) ao idealismo reformista do religioso, passando pelo delirante projeto de escrever a história do futuro. Mas, antes de se ocupar do futuro, Vieira criou tantos embaraços para o presente dos colonos do Maranhão que, em 1661, foi embarcado à força para Portugal, expulso com outros jesuítas por protestar contra a escravização dos índios e ''''emperrar'''' o desenvolvimento econômico do Brasil. Voltou a Portugal confiante de ser recebido como defensor dos oprimidos, mas tudo o que a corte portuguesa fez foi odiá-lo por seus sermões contra a classe dominante, até hoje lidos equivocadamente como manifestos protomarxistas. A despeito disso, Vieira nunca pregou a insurreição social contra nobres ou o clero, mesmo quando perseguido pela Inquisição. Pregou, sim, a justiça social, criticando a prepotência dos poderosos naquele que talvez seja o mais belo de seus sermões, o de Santo Antônio aos Peixes. Nele, o padre condena os peixões que vivem do sacrifício dos peixinhos num texto repleto de metáforas e trocadilhos, escrito por um messiânico desconfiado da audição de seus pares. Irônico, Vieira, mais de uma vez, ousa ocupar o lugar do santo de mesmo nome, abrindo parênteses no sermão para dizer que os peixes são as únicas criaturas interessadas em seu discurso - francamente alegórico para os alvos de suas críticas. Proferido três dias antes de embarcar para Portugal, em 1654, onde foi buscar o remédio para a salvação dos índios, o sermão rendeu dividendos. Ainda havia peixões que podiam ouvir. Vieira voltou com um decreto assinado por d. João IV, garantindo aos jesuítas plena jurisdição sobre os índios. A primeira providência do padre seria a de convencer outros religiosos da Companhia de Jesus, de partida para uma missão religiosa no Amazonas, que o índio ''''bárbaro e rude'''', conforme a concepção do europeu, não era uma pedra. No Sermão do Espírito Santo, o padre recomenda trabalho e perseverança para comunicar ao antípoda a mensagem cristã: ''''Aplicai o cinzel um dia e outro dia, dai uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.'''' A citação explícita e assumida de Lucas tinha como meta convencer os religiosos que, por meio da doutrina do Evangelho, havia Deus de fazer de gentios idólatras súditos fiéis. Por conta de suas obsessões, Vieira já foi chamado de profeta messiânico cujos sermões cruzariam o sebastianismo com as crenças cabalísticas de origem judaica - e uma das razões de ter sido perseguido pela Inquisição foi sua defesa intransigente da igualdade de condições entre judeus convertidos e católicos tradicionais. A Inquisição não perdoou essa defesa dos cristãos-novos ou os contatos que teve na Holanda com judeus e calvinistas, condenando-o ao silêncio. Em mais de uma ocasião, como no Sermão de Santa Teresa, Vieira criticou a Igreja por perseguir santos, lembrando que a mesma se expôs a uma caçada quando empreendeu reduzir a regra carmelita moderada. Por que a santa se arriscava ao descrédito? Pela salvação. Vieira também foi salvo pela palavra. Visionário messiânico, cumpriu o papel do orador barroco que recorreu a uma interpretação pessoal das Escrituras para criar sedutoras metáforas literárias, assumindo, corajosamente, falar em nome do Eterno Padre que lhe mandou ao mundo dos pagãos (Sermão do Espírito Santo). Vieira nunca teve medo de Deus. Até copiou seu discurso.

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