''''Problema é o olhar torto do público''''

O ator Wagner Moura diz que o polêmico Tropa de Elite não é fascista, ''''apenas chama a classe média à responsabilidade''''

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2007 | 00h00

Wagner Moura escolheu o café do Parque Lage, no Jardim Botânico, zona sul do Rio, para conversar com o repórter do Estado. Por quê? ''''Moro aqui perto e este é um lugar que visito bastante. Tem um café da manhã ótimo e gosto de sentar aqui nestes bancos com meu filho. Leio, brinco com ele, me dá muita paz'''', ele diz. O sucesso não mudou o perfil de Wagner. Baiano, de Salvador, continua boa-praça - e ralando. ''''Ralo desde os 15, bróder. Comecei no teatro com essa idade. Há seis vim para o Rio com A Máquina. Viemos - Lázaro Ramos, Vladimir Brichta. Continuo ralando, mas a diferença é que agora ganho um pouco mais.'''' Para entender as emoções finais de Paraíso Tropical, leia textoNão vamos falar de ''''Quem matou Taís?'''', mas da outra pergunta: ''''Tropa de Elite é fascista?''''É absurdo esse debate criado em torno do filme. Padilha (o diretor José Padilha) é um humanista que fez Ônibus 174, pô. Como um cara desses pode ter feito um filme fascista?Digamos então que o filme estimula o fascismo das pessoas. Na sessão de abertura do Festival do Rio, o público queria sangue e gritava ''''Mata!'''', sempre que o capitão Nascimento estava torturando traficantes.Outra coisa que se discute é se o capitão Nascimento é um herói. Nem o filme é fascista nem ele é um herói. Acho que o que há é um olhar torto do público. As pessoas sentem-se tão inseguras, tão desprotegidas que embarcam em qualquer promessa, mesmo que mínima, de segurança. Tropa de Elite está provocando esse bochincho porque é o filme certo, na hora certa. O que o Padilha discute é a falência do sistema de segurança no País. E não só. Ele discute o papel da classe média diante do tráfico. Quando Nascimento esfrega a cara do boyzinho no sangue do traficante morto, ele está chamando a classe média à responsabilidade. Se não houvesse consumidores, não haveria tráfico.O filme discute a corrupção da polícia comum. Ao mesmo tempo, documenta a violência do Bope (Batalhão de Operações Especiais). Como foi vestir a farda e subir o morro?Havia um acordo com o movimento (o tráfico) para que a gente pudesse filmar. Num determinado momento, ele foi rompido e as armas da produção foram roubadas, mas nunca senti que corria risco de morrer, por exemplo. Havia tensão, alguns oficiais do Bope tentaram impedir a exibição do filme, mas, cara, a maioria da polícia e do Bope é a favor. Os integrantes do Bope amam o batalhão e acham que o filme divulga o trabalho deles. A polícia comum acha que o filme explica por que eles são corruptos.Nascimento é um homem em crise. Quer salvar a família e o batalhão, arranjando um substituto para ele mesmo no Bope.Tem gente que acha o filme fascista e o Nascimento, um herói porque o humanizo. É meu papel como ator. Entender e humanizar esse cara que, apesar de toda sua violência, é humano. Saí do set de Saneamento Básico - O Filme e caí no meio da preparação de Tropa de Elite. Foi a coisa mais doida, aquilo mesmo que está no filme, em relação aos novos aspirantes. Meu filho tinha nascido, era a mesma situação do Nascimento no filme. A diferença é que quando chegava em casa, após um dia extenuante de filmagem, olhava meu filho no berço e isso me dava muita paz.Sua carreira teve um desenvolvimento extraordinário nos últimos tempos. É um sucesso atrás do outro: Cidade Baixa, JK, Paraíso Tropical, Tropa de Elite. Qual é a fórmula?Trabalho, e sorte. Todo aquele pessoal da Máquina, o Lázaro, o Vladimir e eu estamos colhendo um pouco o trabalho do nosso esforço. Mas foi duro, meu irmão. Não pensa que foi mole, não.Você diz que Olavo só deslanchou na novela por causa do humor. Você imaginava que o personagem teria essa repercussão toda?Digamos que ele superou minha expectativa, mas Gilberto Braga criou alguns dos maiores vilões e vilãs da história da TV brasileira. Fazer um vilão numa novela dele é muito mais interessante, e estimulante, para qualquer ator, que o mocinho. O vilão provoca. O mocinho, como poço de virtudes, é um chato.Suas cenas com Bebel possuem alto apelo erótico. Outro dia você a chamou de cachorra, esculachou, mas as mulheres não acharam vulgar. Tem gente dizendo que você virou mito sexual...Cara, eu? Não sei nem como responder a isso. Acho legal as pessoas curtirem os diálogos, as cenas, mas mito sexual? Sou casado, um homem de família, não sou boyzinho para posar de gostoso.A novela termina amanhã, o filme estréia dia 12. Qual será o dia seguinte de Wagner Moura?Vou tirar férias com a família, depois volto ao teatro. Foi lá que comecei, é lá que me alimento, que ganho energia. O teatro é a arte do ator, não o cinema, não a TV.E o que você vai fazer?Hamlet, com direção de Aderbal Freire Jr., no ano que vem.Por quê?Porque é a melhor peça já escrita. Shakespeare é tudo.Mas daqui a 30 anos você vai chegar à conclusão de que Rei Lear é melhor ainda.Bacana. Vou ter mais um grande papel e texto para sonhar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.