Prisioneira do tempo e do mar

Em Um Dia, no Verão, Renata Sorrah e Silvia Buarque vivem no palco a mesma mulher, presa ao sumiço do marido

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2007 | 00h00

Duas mulheres observam, melancólicas, o mar através da janela. Buscam, no infinito, a volta do homem que sempre amaram. Interpretadas por Renata Sorrah e Silvia Buarque, as mulheres são, na verdade, uma só, divididas pelo tempo: no presente, ela é a esposa madura vivida por Renata, que ainda tenta entender o desaparecimento do marido; no passado, 25 anos atrás, é a mesma mulher, interpretada por Silvia, que vive o impacto do momento da perda. A espera interminável, a incomunicabilidade, a falta de compreensão sobre os acontecimentos marcam a peça Um Dia, no Verão, que estréia hoje, no Sesc Anchieta.Escrito pelo norueguês Jon Fosse, o texto minimalista, enigmático, marcadamente sensorial, conta a história da atormentada Mulher Madura, que aguarda há 25 anos a volta do marido, o melancólico Otto (Gabriel Braga Nunes), que saiu de barco, em uma noite fria e chuvosa, e não voltou. A ação se situa em dois tempos - o presente, no verão, em que a Mulher Madura evoca suas lembranças, e o passado, no outono, quando as memórias tomam vida. ''''Ao longo desses 25 anos, ela tenta descobrir o que aconteceu naquele dia'''', comenta Renata, cujo papel narra a história em cena. ''''Na verdade, não se trata de uma simples narração, mas de um reviver, pois, ao relembrar o fato, a mulher vê o que está acontecendo, ela presencia o momento em que sua vida parou completamente no tempo.''''Para a atriz, essa mulher revive diariamente seu drama, o que justifica a riqueza de detalhes. Ela se lembra, por exemplo, da visita que recebe de um casal de amigos (Bia Junqueira e Dadá Maia, alternando o papel da mulher, e Fernando Eiras), que também procura uma explicação para o desaparecimento. ''''Para mim, a natureza da mulher é tão autodestrutiva como a do marido, que é um homem insatisfeito com o mundo'''', comenta Silvia Buarque. ''''Afinal, descontente com a cidade, ele se muda para uma casa na praia e, mesmo lá, o homem parece não se encontrar.''''A insatisfação de Otto - único personagem, aliás, a ter um nome - gera a dificuldade de comunicação com a mulher que, mesmo não se sentindo à vontade na casa (em um determinado momento, ela afirma que o mar lhe parece sinistro), continua presa ao espaço. ''''Ela tenta entender o que aconteceu, mesmo sabendo que o homem não vai voltar. Para mim, é como se ela tivesse uma premonição do que iria acontecer, mas não conseguiu fazer nada. Daí ter se rendido ao destino'''', comenta Renata que, com a montagem, comemora 40 anos de carreira.Sempre disposta a encenar personagens que contestam sua rotina, a atriz recebeu a indicação de Um Dia, no Verão, em 2004, de um amigo que viu uma montagem na Alemanha. Intrigada com o texto (não há pontuação em nenhuma das falas), Renata convidou Silvia para dividir o palco e a produção. Foram precisos dois anos de espera até que a agenda de ambas permitisse concentrar-se na produção, já vista em Brasília e no Rio.D

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