Primeiros debates tratam dos autores multimídias

Mesas do Café Literário, ocupadas por escritores jovens, começam a esquentar o evento literário carioca, que prossegue até o dia 20 e espera 600 mil visitantes

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Temas tão distintos quanto a relação entre realidade e literatura, o pertencimento (ou não) a uma geração, a ficção que privilegia o abjeto e o caráter multimídia de autores em atividade permearam as conversas entre escritores no Café Literário, na Bienal do Livro, em seu primeiro dia. Num papo entre amigos, três jovens autores (na casa dos 30 anos), Michel Melamed, Santiago Nazarian e Cecília Gianetti discutiram O Papel da Escrita no Contexto Multimídia. O primeiro é autor teatral, ator (Bentinho da minissérie Capitu), apresentador de TV, músico e poeta; o segundo vem da publicidade; Cecília foi repórter de jornal e faz traduções.

"Esse conceito de multimídia traz uma pecha muito ruim. Nos anos 90, significava que era alguém que não fazia nada bem. Hoje, de fato estamos cercados por mídias diversas. Para mim, é tudo literatura, porque começa na palavra escrita", considera Melamed, talvez o mais "multi" entre seus pares. "Eu acho que os autores hoje têm menos pompa, menos medo de parecer que não são sérios. Eu, por exemplo, tenho fobia de câmera, mas faço um acordo com amigos: escrever o que der na telha e depois colocar na internet, sem pensar se isso vai prejudicar o lançamento do meu livro", disse Cecília, que, durante a conversa, falou um pouco de seu primeiro livro, Lugares Que Não Conheço, Pessoas Que Nunca Vi (Agir).

Falando sobre sua geração, Nazarian comentou o fato de alguns colegas fazerem questão de deixar de lado referências à cultura pop e se portarem como "escritores malditos do século 19". Já ele não tem essa preocupação - em seu romance recém-lançado O Prédio, o Tédio e o Menino Cego (Record), em que os personagens centrais são sete adolescentes, há elementos de filmes de terror e do universo de videogames. "Fiz um laboratório com meninos de 7ª e 8ª séries no colégio onde eu estudei; queria ver o que existe de atemporal na adolescência", contou Nazarian, que concordou com a mediadora da mesa, a escritora Suzana Vargas, quando ela apresentou seu livro como um romance de formação (Suzana o classificou como "O Apanhador no Campo de Centeio do século 21").

Melamed (autor de Regurgitofagia, peça e livro, da Objetiva) apontou que rotular os autores como desta ou daquela geração "é bom para vender livro". O mesmo assunto havia sido tratado na mesa anterior, que reuniu Lourenço Mutarelli (O Cheiro do Ralo, editora Devir, entre outros), André Sant"Anna (Inverdades, 7 Letras) - ambos na faixa dos 40 e que se encaixam na chamada "geração 90" - e a jovem Ana Paula Maia (Entre Rinhas de Galo e Porcos Abatidos, Record). O trio foi chamado a discutir o abjeto como tema. "Eu publiquei meu primeiro livro numa época em que se dizia que não havia literatura brasileira e que os jovens só queriam saber de guitarra. Depois apareceu essa história de geração 90. Eu nunca quis assumir nem me colocar de fora", comentou Sant"Anna.

Mutarelli comentou a possibilidade de voltar a fazer quadrinhos e ainda sua experiência como ator no filme Natimorto, de Paulo Machline, adaptação de seu livro. "Gosto de usar a palavra galã, em vez de ator, acho mais charmoso", brincou. "Viver o personagem fisicamente é muito estranho, mas divertido." A Bienal do Rio vai até o dia 20. São esperados 600 mil visitantes até lá.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.