Primeiro texto de Pinter abre espaço

Juliana Galdino e Roberto Alvim escolhem O Quarto para inaugurar sua sede com encenação de radical plasticidade

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

08 de novembro de 2008 | 00h00

Cultura é acúmulo. Camada sobre camada. A arte, um aspecto da Cultura humana, não é diferente. Uma obra de arte espelha o humano, mas é também sua própria linguagem artística, apropriação e inovação de códigos acumulados ao longo do tempo. A encenação de O Quarto, peça de Harold Pinter, criação da companhia Club Noir que estréia hoje inaugurando um teatro de mesmo nome, na Rua Augusta, fundado pelo grupo, privilegia a ?linguagem? cênica para ressaltar os aspectos humanos desse texto.Juliana Galdino, atriz formada no Centro de Pesquisa Teatrais (CPT-Sesc) de Antunes Filho, premiada como protagonista da tragédia Medéia, é também fundadora do Club Noir - tanto o grupo como o aconchegante teatro - em parceria com Roberto Alvim. Juntos, ele diretor, ela intérprete, se lançam na abertura da casa e nessa encenação de O Quarto, primeira peça de Pinter, em montagem que traz no elenco Lígia Yamaguti, Gê Viana, Rodrigo Pavon.No ensaio acompanhado pelo Estado, chamou atenção a radicalidade da linguagem. Quase não há gestos ou movimentos, nesse espetáculo hipnótico, de impactante plasticidade. Primeiro texto de Pinter, O Quarto já traz em potencial todos os aspectos do humano que marcam sua dramaturgia: o desejo de proteção em família, em abrigos, que no entanto não conseguem proteger de um exterior ameaçador. E misterioso. Nunca se sabe de onde vem o perigo, o que só amplia o medo, temor ancestral, universal.Roberto Alvim assina cenário, iluminação e trilha sonora e o público se depara com um palco cercado de paredes, piso nu, molhado. Um ambiente úmido e penumbroso, o quarto alugado onde vive, quase confinado, o casal Rose (Juliana) e Bert. Porém todo cuidado não evitará a invasão em suas vidas do outro, não por acaso, do que vive ?no porão?. Ao evitar qualquer gesto naturalista - por exemplo, sabe que Rose faz chá ou pega um casaco pelas palavras, não pelos gestos -, o diretor buscar tornar evidente o que está latente para além de palavras e gestos."O palco está vazio de coisas e gestos, mas está cheio de linguagem para provocar o imaginário", diz Alvim. ServiçoO Quarto. 60 min. Club Noir. Rua Augusta, 331, tel. 3257-8129. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 10. Até 29/3

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.