Primeiro-cachorro

Estes textos têm que ser escritos com uma certa antecedência, o que prejudica a sua atualidade. Me arrisco a ver meus palpites desmoralizados pelos fatos antes da sua publicação ou acabar como um profeta do já acontecido. Não sei, por exemplo, se quando isto sair o Barack Obama já terá feito as duas escolhas mais importantes para o seu futuro governo, que são a do seu secretário do Tesouro e a do cachorro para suas filhas.Quando escrevo, um dos nomes cogitados para o Tesouro é o do lamentável Lawrence Summers, que um dia propôs que indústrias poluidoras fossem instaladas em países subdesenvolvidos porque a mão-de-obra era mais barata e portanto o custo social seria menor. Depois, como presidente de Harvard, teve que pedir desculpa às mulheres por ter sugerido que certas profissões e atividades estavam além da sua capacidade intelectual. Só ele ter pensado em Summers já foi a primeira decepção com o Baraca.A escolha do primeiro cachorro deve ser mais fácil. Para começar, ele só precisará ser adorável, não precisará entender de economia e finanças. A não ser que seja um cachorro especialíssimo, nem falará, quanto mais dirá bobagens para se arrepender depois. Na verdade, o único perigo que haverá será o cachorro fazer no gramado da Casa Branca, na frente das câmeras, o que o Summers de vez em quando faz figurativamente falando, mas no seu caso sem qualquer repercussão no mercado. O posto de primeiro-cachorro será o mais invejado em Washington. Ele terá chegado à Casa Branca sem a necessidade de enfrentar primárias, debates e uma longa campanha com discussões sobre seu passado, suas idéias e sua competência para o cargo. Ao contrário do Barack, nem sua raça será discutida. Pode ser um fator na sua escolha, mas se ele for um vira-lata sem raça alguma será ainda mais simpático. E ele se transformará numa celebridade instantânea. Durante no mínimo quatro anos será o animal mais famoso do mundo. Terá alimentação assegurada, atendimento médico dia e noite - tudo isto sem ter que se preocupar com a crise, com a oposição republicana ou com os destinos da humanidade. É verdade que, baseados no comportamento de antigos ocupantes da Casa Branca - não, não o Clinton, o cachorro dos Roosevelt, Fala, e o dos Bush, Barney - talvez tenham que castrá-lo. Mas será um pequeno preço a pagar pela fama, e pelos anos de mordomia.Franklin Roosevelt dizia que seu "terrier" escocês Fala era seu melhor amigo e confidente. Fala viajava com Roosevelt, dormia no seu quarto e participava de todas as reuniões da presidência. Uma vez inventaram que Roosevelt esquecera Fala numa ilha do Pacífico, depois de uma conferência, e mandara um destroyer buscá-lo, ao custo de milhões de dólares dos contribuintes. Num discurso, Roosevelt disse que não se importava com os ataques a ele e à sua família mas que Fala ficara indignado com a acusação, e não era mais o mesmo cachorro. A oposição não tinha idéia do mal que fizera à administração do país. Barney também era um "terrier" escocês que acompanhava Bush por toda parte, mas não deve ser verdade que também era seu principal conselheiro. MOMENTO(Da série Poesia Numa Hora Destas?!)Arpoador.Pôr-do-sol.Teus olhos verdes.Dois chopes,leve brisa e maresia....Covardia.

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