Alexei Naroditskiy©Garage Museum of Contemporary Art
Alexei Naroditskiy©Garage Museum of Contemporary Art

Primeira Trienal de arte contemporânea russa é apresentada no país

Pesquisa de curadores do evento durou 3 anos, incluindo 8 regiões do país e mais de 200 artistas

Sheila Leirner, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 Maio 2017 | 07h00

MOSCOU - A primeira Trienal de arte contemporânea russa foi apresentada este mês nos belos espaços do novo museu Garage - projetado pelo arquiteto, teórico e urbanista holandês Rem Koolhaas - e em torno do Parque Gorky em Moscou, onde a instituição privada se encontra. A mostra teve o ambicioso objetivo de revelar a esfera de ação artística da Rússia em sua totalidade, trabalhando com redes regionais de curadores em cada contexto local. Os especialistas encontraram dezenas de artistas espalhados em mais de 40 cidades, desde o Mar Báltico até o Oceano Pacífico. 

A tarefa foi monumental e exemplar, não apenas por seus resultados, realmente surpreendentes pela vitalidade e originalidade. A ideia de divulgar e estimular a arte contemporânea de um país duas vezes maior do que o Brasil, provou que isso é possível e desejável. Estamos cansados das mesmas e repetidas figuras carimbadas, eternamente presentes no mercado e, portanto, em todas as exposições internacionais!

Para a inauguração, pela primeira vez na Rússia, os artistas participantes reuniram-se na capital para estabelecer o potencial para o desenvolvimento de uma rede nacional peer-to-peer, que permite compartilhar serviços e dados por computador sem a necessidade de um servidor central. Respondendo à falta de recursos de muitos desses artistas, a Trienal também comissionou várias obras e instalações.

Longe da preguiça dos que oportunisticamente “abdicam de uma curadoria”, pensando servir melhor o público e os artistas, os corajosos e finos curadores da Trienal se reuniram, durante três anos, com mais de 200 artistas, entre 19 e 69 anos. A partir desse contato, identificaram os sete vetores que orientam os seus trabalhos: Figura Mestre, Mitologias Pessoais, Fidelidade ao Lugar, Linguagem Comum, Arte em Ação, Morfologia de Rua e Histórias Locais de Arte - através dos quais a vida artística atual do país pode ser amplamente compreendida.

Essas tendências oscilam entre uma forte identificação com ambientes urbanos e naturais, o impulso para criar mundos mitológicos elaborados, e uso da prática artística como ativismo (feminista, entre outros, na linha de Pussy Riot) ou simplesmente como meio de participar do discurso estético, social e político internacional. Muitas vezes isolados e/ou trabalhando na ausência de infraestruturas culturais estabelecidas, o que une os artistas russos tão diferentes da exposição é a desenvoltura, a liberdade e uma crença poderosa na arte como um modo de vida. O ponto comum também é a escala: nenhum deles parece desejar “impactar” ou “sobressair”, como é tão frequente em nossas bienais. Suas obras possuem dimensão humana, a participação é sóbria, o alcance delas condiz exatamente com o que pretendem declarar, não excedendo um só iota de seus objetivos fundamentais.

Polêmica. Por outro lado, a Trienal de Moscou organizou mesas-redondas, discussões e performances que questionam o lugar dos artistas da Crimeia dentro da criação contemporânea. Para alguns, esse programa soou como uma provocação. O assunto é realmente sensível: anteriormente ligada à Ucrânia, a Crimeia juntou-se ao território russo em 2014 por meio de um referendo precipitado, supervisionado por soldados de Putin e considerado ilegal por grande parte da comunidade internacional. Assistimos até mesmo a um curta-metragem intitulado Refúgio da Paz, que conta a história do cineasta Oleg Sentsov, um oponente feroz à incorporação de sua península à Rússia, acusado de terrorismo e preso há dois anos.

Anton Belov, diretor do Garage, defende os artistas da Crimeia que, segundo ele, “continuam a ser excluídos da vida russa”. De fato, como os demais criadores de regiões longínquas, esses também trabalham com quase nenhuma infraestrutura e apoio, o que faz com que - a exemplo de certos artistas brasileiros - a sua existência seja esquecida. Tanto pelo vigor artístico da mostra quanto por suas declarações, os curadores deixam claro que esta não é uma “exposição política”, diríamos, exangue como foi a última Bienal de São Paulo. Ela “reflete também realidades geopolíticas”. É dessa maneira, revelando, “curatorialmente”, apenas a arte oculta nos recônditos do nosso país, que a prestigiosa mostra brasileira deveria ser pensada no futuro, de tempos em tempos. 

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