Primeira crítica ao último Harry Potter

Leia abaixo a opinião da especialista do jornal The New York Times sobre o romance de J.K. Rowling, à venda a partir de hoje

Michiko Kakutani, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Então, aqui está enfim: o confronto final entre Harry Potter, o Menino Que Viveu, o Escolhido, o ''''símbolo da esperança'''' tanto para o mundo dos Mágicos como para o dos Trouxas, e Lorde Voldemort, Aquele Que Não Deve Ser Nomeado, o líder nefasto dos Comensais da Morte e candidato a controlador supremo. Bem contra o Mal. O jogador de quadribol contra o Senhor das Trevas.O épico monumental e mágico de J.K. Rowling, que levou dez anos para ser construído, está enraizado profundamente na literatura tradicional e nas sagas de Hollywood - desde a mitologia grega até Dickens, Tolkien e Guerra nas Estrelas - e, coerente com suas raízes, termina não com um equívoco modernista, açucarado, mas com um bom final como os de antigamente: uma tela grande, confrontos de tirar o fôlego e gelar os ossos e um epílogo que deixa claro os destinos das personagens.Não é fácil alcançar a linha de chegada - a porção final do livro tem algumas passagens tolas, com desvios do foco principal e longas explanações - mas a conclusão da série, suas linhas e determinações sobre as personagens principais, possui uma inevitabilidade que faz de algumas especulações sobre o final da saga parecerem obtusas.Com cada livro, a saga de Harry Potter tem ficado mais escura, sombria e este volume - do qual uma cópia foi comprada em uma loja de Nova York na quarta-feira, apesar do embargo para o lançamento só terminar à meia-noite de hoje - não é exceção. Embora a voz ágil de Rowling ainda se mova sem esforço entre o sarcasmo adolescente de Ron e a crescente solenidade de Harry, entre a exuberância juvenil e a gravidade mais filosófica, Harry Potter and the Deathly Hallows é, em sua maior parte, um livro sombrio que marca a entrada definitiva de Harry nas complexidades e tristezas da vida adulta.Desde seus primeiros dias em Hogwarts, o jovem mago carrega o peso de ser o Escolhido, tendo que atender às expectativas e deveres deste papel e, neste volume, jogos de quadribol dão lugar a batalhas reais e Harry, em diversos momentos, deseja não ser o líder do movimento de resistência mas, sim, um adolescente comum - livre para namorar Ginny Weasley e curtir com os amigos.Harry já havia perdido os pais, seu avô Sirius e seu professor Dumbledore, mentores de quem um dia pôde receber conselhos e, neste volume, a soma aumenta com velocidade angustiante: pelo menos seis personagens que passamos a conhecer morrem nessas páginas e muitos outros são feridos ou torturados. Voldemort e seus seguidores se infiltram em Hogwarts e no Ministério da Magia, criando terror nos mundos dos Mágicos e dos Trouxas - e os membros de diversas populações, incluindo elfos, gnomos e centauros, estão escolhendo lados.Não chega a surpreender, portanto, que Harry sinta-se cheio de dúvidas e desapontamentos neste sétimo volume da série. Ele continua a lutar para controlar seu temperamento e, enquanto ele, Ron e Hermione procuram pelos perdidos Horcruxes (objetos mágicos secretos nos quais Voldemort guardou partes de sua alma, objetos que Harry deve destruir se espera matar o senhor do mal), ele literalmente entra em uma floresta escura, na qual deve lutar não apenas contra os Comensais da Morte como também contra as tentações provocadas pelo excesso de confiança e pelo desespero. A estranha conexão psicológica entre Harry e Voldemort também fica mais forte, dando a ele dicas sobre as ações e a localização de Voldemort, mesmo que isso o aproxime mais do lado do mal. Um dos pontos mais importantes da trama diz respeito à possibilidade de Harry de deixar de procurar os Horcruxes e sair em busca de três objetos mágicos conhecidos como Hallows, que, dizem, dão à pessoa que os possuir poder sobre a Morte.A jornada de Harry o levará em direção a um confronto final com seu arquiinimigo, mas também de volta ao passado, para a casa em que seus pais morreram, onde ele vai aprender sobre sua própria história e a igualmente misteriosa trajetória da família de Dumbledore. Ao mesmo tempo, ele será obrigado a ponderar sobre a equação fraternidade versus independência, livre-arbítrio e destino, e lidar com as próprias fragilidades.Ambigüidades proliferam ao longo do livro: descobrimos que personagens como o gentil Dumbledore ou o sinistro Severus Snape podem ser figuras mais complicadas do que pareciam, que todos eles, como Harry, esconderam aspectos de suas personalidades, e que saber fazer escolhas - mais do que ter talento ou predisposição - é o que conta.É a conquista de Rowling conseguir fazer de Harry tanto um adolescente comum como um herói épico. Esse mesmo talento permite a ela criar uma narrativa que misture sem grandes esforços alusões a Homero, Milton, Shakespeare e Kafka com brincadeiras infantis sobre doces com gosto de vômito. Ao fazer isso, ela criou um mundo tão detalhado quanto a Terra Média de Tolkien, um mundo tão minuciosamente imaginado em termos de sua história e seus rituais, que o qualifica como um universo paralelo - o que, talvez, explique o enorme sucesso da saga.Com este volume final, o leitor percebe que incidentes pequenos e aparentemente sem importância apresentados nos outros livros criam uma trilha de pistas sobre a trama; que Rowling termina de montar o quebra-cabeças de sua saga com ingenuidade e ardor dignos de Dickens. Objetos e poções de outros livros vão desempenhar papéis importantes e alguns personagens vão reaparecer.O mundo de Harry Potter é um lugar em que o mundano e o maravilhoso, o ordinário e o surreal, coexistem. É um lugar onde carros podem voar e corujas entregam correspondências, em que quadros falam e um espelho pode refletir os desejos mais íntimos das pessoas. É também um lugar totalmente familiar aos leitores, um lugar em que as mortes e catástrofes do dia-a-dia são inevitáveis e a vida das pessoas são definidas pelo amor, pela perda e pela esperança - da mesma forma em que no nosso mundo mortal.

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