Presidente do júri defende alternativos

Tilda Swinton garante que o futuro está na produção camicase e que é preciso reorientar o público e investir na sua formação

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

No ano passado, a multidão reunida na entrada dos artistas gritava os nomes dos Rolling Stones, que inauguravam o 58º festival com o documentário Shine a Light, de Martin Scorsese. Este ano, o cenário e a multidão eram os mesmos, mas o nome gritado agora era o de Clive Owen, protagonista do thriller The International, de Tom Tykwer, que inaugurou ontem mais um Festival de Berlim, o de número 59. Nas entrevistas que tem dado para justificar suas escolhas de filmes para este ano, o diretor artístico Dieter Kosslick explica que não poderia estar mais grato a Tykwer - seu filme discute o poder dos bancos justamente num momento em que o sistema econômico foi quase todo pelo ralo, numa crise que começou justamente nos grandes conglomerados financeiros. The International traz a atualidade para a Berlinale de 2009.Na coletiva após a exibição de The International para a imprensa, o próprio Tykwer, diretor alemão de filmes como Corra, Lola, Corra, O Perfume e Paraíso, baseado no roteiro inédito de Kryzstof Kieslowski, minimizou a tal atualidade. Foi mera coincidência, disse. Afinal, há seis anos vinha trabalhando nesse projeto, complicado por múltiplos fatores. Um filme grande, caro, com muita pesquisa para criar um drama convincente e, depois, para achar as locações e o capital, além do elenco. Clive Owen conta que foi seduzido pelo roteiro, "bem escrito e que trouxe à lembrança os grandes thrillers de paranoia dos anos 70".Uma associação possível é com outro thriller recente protagonizado por Owen, As Crianças do Futuro, de Alfonso Cuarón. Ambos, e por diferentes vias, apontam para um futuro sombrio da liberdade. O ponto de The International é que existe este banco, acima e à margem da lei, que recorre à chantagem e ao assassinato. O objetivo é o poder supranacional que se acumula pelo aumento da dívida de pessoas e países. Na trama, Owen é o agente que há anos se dedica a investigar e perseguir os dirigentes do banco. Naomi Watts é sua superiora numa agência do governo americano e Armin Mueller-Stahl faz o ex-comunista sincero que, depois de dedicar a vida ao fracasso do partido, passa-se para o lado do capital - mas, como percebe Owen, tudo o que ele quer é se redimir.O cinéfilo de carteirinha fica se perguntando o que um filme desses faz na abertura de um dos três maiores - com Cannes e Veneza - festivais do mundo. Como espetáculo de ação, The International brinda o espectador com cenas como um tiroteio que destrói não só uma exposição mas o próprio Guggenheim Museum, em Nova York. As locações saltam de Berlim para Milão e Istambul. A última cena foi a primeira a ser filmada e Owen disse que nunca enfrentou desafio maior. O desfecho vem no crescendo de uma trajetória que leva o herói ao seu limite, sempre na estrada. Entrar de cara no personagem pelo fim foi uma experiência que ele nunca havia tido antes. Já o espectador teve muitas vezes essa experiência. The International tem vários fatores atraentes para abrir um festival - nomes de prestígio, uma produção sólida, até certo ponto é bem-feito. Só não estimula o pensamento. É banal.Justamente contra isso advertia a presidente Tilda Swinton, na coletiva de apresentação do júri, antes da exibição de The International. Tilda lembrou seu começo em filmes de Derek Jarman e contou uma experiência recente, um festival que ajudou a promover numa pequena cidade de pescadores da costa escocesa, para dizer que o futuro do cinema está na produção camicase. É preciso reorientar o público para um tipo de produto mais alternativo. No festival, eles mostraram filmes raros de grandes diretores - Fellini, entre eles - para um público que se emocionou com um cinema menos banal do que o representado por The International. Os exibidores são os culpados, arrisca Tilda Swinton. Eles investem no certo, não se preocupam com a formação de público. O discurso da atriz-presidente e de seus colegas - a diretora Isabel Coixet, os diretores Wayne Wang, Gaston Kaboré e Christoph Schlingensief, a ativista culinária Alice Waters - situou-se na contracorrente do filme de abertura. A seleção com certeza deve mudar o rumo nos próximos dias. O começo foi conflitante, e ainda por cima faltou a beleza de Naomi Watts. A atriz, que deu à luz recentemente, preferiu ficar com sua cria a fazer a promoção de The International. Considerando-se que o filme não é lá muito brilhante, fica difícil não lhe dar razão. O repórter viajou a convite da organização do festival

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