Preparador de elenco ou ''dentista de leão''

Christian Duurvoort, que trabalhou em O Banheiro do Papa e Blindness, fala dessa nova e já polêmica função do cinema nacional

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

Para que serve um preparador de ator no cinema? Para ''entregar pronto'' um ator a um diretor prestes a filmar ? Para economizar tempo (e dinheiro) e paciência da equipe de filmagem, que pode confiar na existência de um elenco preparado para entrar em cena e livre de crises diante de cenas complicadas? ''Para tudo isso. E mais. Diria que é um dentista de leão. Meu papel é entrar em campo e ver onde está o problema'', responde Christian Duurvoort, o dentista de leão de filmes como O Banheiro do Papa e Plastic City, do chinês Yu Lik Wai, que começa a ser rodado no domingo.No intervalo da preparação de um ator japonês (que fala japonês) para contracenar com um garoto que nunca atuou (e fala português) em Plastic City, Duurvoort conversou com o Estado sobre seu ofício. É fato que sua função é nova no cinema nacional (no internacional, com esse caráter coletivo, é praticamente inexistente). É também fato que a figura do preparador é considerada imprescindível por muitos (como Fernando Meirelles, que trabalhou com Duurvoort em Blindness e com Fátima Toledo em Cidade de Deus) e persona non grata por outros (principalmente atores profissionais, que muitas vezes vêem no preparador espécie de explorador do que há de bom, e ruim, na personalidade de cada um, profissional ou não).A função é polêmica, mas chegou para ficar nos sets brasileiros. ''Agradeço a todos, principalmente, à Fátima Toledo, que acreditou que esse personagem pudesse sair de mim'', disse na segunda-feira a atriz Carla Ribas, eleita a melhor do Prêmio Fiesp/Sesi-SP do Cinema Paulista por seu papel em A Casa de Alice. Hermila Guedes, que contou com Fátima para compor sua personagem em O Céu de Sueli, assina embaixo. ''Fátima remexeu em feridas familiares. Como atriz, foi ótimo; mas, como mulher, sofri. As feridas não haviam cicatrizado'', disse ela quando lançou o filme.É exatamente essa dor o motivo de discordância. ''Preparar atores é permitir que se aflore o personagem que o ator tem dentro de si e não transformar o ator em um grande personagem'', disse Fátima ao Estado, em 2005, quando se preparava para decidir se seria Hermila a protagonizar O Céu de Sueli. Hoje, sabe-se que tanto ela quanto o diretor Karim Ainouz fizeram a escolha certa.Fátima, o maior alvo de críticas e elogios, quando o assunto é esse, tem vasta experiência na área. Foi ela quem preparou Fernando Ramos para ser Pixote, de Hector Babenco. Mas foi só com o tom de neo-realismo de Cidade de Deus que seu método ganhou as primeiras páginas dos jornais e de rodas de discussão. Discussão esta que, parece, não chegará ao fim tão cedo.Seguindo outra corrente, Duurvoort, que foi assistente de Fátima em Cidade de Deus, desenvolveu seu próprio método e hoje trabalha com a vertente não da dor, mas da cura. ''A denúncia, a dor é para o documentário. E o processo da cura é a aprendizagem'', diz ele, que, em O Banheiro, baseou-se muito mais na homogeneização do elenco que em destacar um protagonista. ''Tinha de colocar no mesmo patamar um dos maiores atores do teatro uruguaio (César Troncoso, o Beto) e um pintor de paredes (Mario Silva, o Valvulina). Não é fácil, mas é meu trabalho. Propor soluções em pouco tempo'', conta ele, que estudou dramaturgia na Holanda, na França, com Jacques Lecoq e Monika Pagneux. ''Lá fora, já está tudo estabelecido e engessado. Fiquei feliz de ver como o trabalho com O Banheiro foi elogiado até por atores como Danny Glover (que Duurvoort preparou para Blindness).''Para ele, com o renascimento do cinema nacional, cada vez mais preparadores estão, a seu modo, desenvolvendo sua própria técnica, muito calcada no aspecto físico. ''A Fátima trabalha a parte psicológica, mas também o desprendimento físico. Eu trabalho muito a estrutura e espontaneidade. 80% do trabalho é físico. Ganho muito tempo com isso. Respiração é crucial. Uma pessoa com medo não boceja, não ri. Respirar por cinco minutos te faz rir e se desarmar. É importante. A disponibilidade é tudo para o trabalho de um ator. O preparador tem de olhar as pessoas e não um monitor.''

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