Prêmio da Música dá um olé na crise

Órfão do patrocinador, Machline segurou a onda e recorreu aos amigos para manter festa, que será realizada em julho no Rio

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

O verso que diz que "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito" cabe bem quando se fala da situação por que passou José Maurício Machline este ano. Quando se viu sozinho, sem patrocínio para tocar o ex-Prêmio TIM de Música, ele só pôde contar com os amigos. Entre eles, está uma amiga bem especial, que será a apresentadora do agora denominado Prêmio da Música Brasileira: a atriz Fernanda Montenegro. "Quando as pessoas começaram a me ligar para oferecer ajuda, a primeira pessoa em que eu pensei foi a Fernanda", lembra o produtor e criador da premiação, que já dura 24 anos.Machline recebeu a reportagem em sua casa, no Jardim Botânico, no Rio, ao lado da atriz, na noite de segunda-feira. Contou que já está tudo certo para a cerimônia, que será realizada no Canecão no dia 1º de julho. São 29 jurados e 103 indicados em 16 categorias (de CDs e DVDs), o que faz com que este seja o mais abrangente do gênero (além de mais longevo). A lista de concorrentes saiu ontem e Zeca Pagodinho é o líder, com cinco indicações.Toda a mão de obra saiu a custo zero - graças ao prestígio do prêmio e de suas relações pessoais: os arranjos dos números musicais (com Zeca, Maria Bethânia, Lenine e outros) serão de Rildo Hora, o cenário e a programação visual, de Gringo Cardia, a iluminação ficou com Cesio Lima e o roteiro será assinado por Aloísio de Abreu. Assim como os demais, Fernanda aceitou trabalhar de graça. "É a insistência de uma pessoa que cultua a MPB. Por que não, se eu poderia estar no Rio?"Os ensaios começam no dia 22. A temporada no Sesc Consolação do monólogo Viver Sem Tempos Mortos, em que Fernanda apresenta reflexões sobre a obra de Simone de Beauvoir, acaba no dia 28, e ela estará no Rio para o ensaio geral. Tudo já estava estruturado quando a TIM, que adotou o antigo Prêmio Sharp em 2003, comunicou que o patrocínio seria "descontinuado". "A ideia era fazer uma cerimônia para 2.500 pessoas na Praia de Copacabana. A TIM tinha gostado da ideia. As inscrições tinham batido recorde. Não sei o que aconteceu com a TIM. No ano passado, o prêmio deu um retorno de 18 vezes do valor investido", lembra Machline, que já tem interessados para o prêmio de 2010, da área de telecomunicações e bancos.A notícia de que o prêmio estava ameaçado ganhou as ruas, e então começaram a chegar as manifestações de solidariedade. Além de Fernanda, outros amigos também disseram "sim" a Machline: a apresentação será dividida com os atores Vera Holtz e Marcello Antony. A tradicional homenagem a um artista brasileiro, que já foi para Dorival Caymmi, Bethânia e Dominguinhos, este ano lembrará Clara Nunes - o que, segundo o produtor, foi mais um chamariz. "As pessoas se mobilizaram também porque existe muita simpatia da classe artística por ela."Fernanda já havia apresentado o TIM em 2007, com Camila Pitanga. Não por acaso, a música é muito presente na vida desta atriz de quase 80 anos, fã de Lulu Santos, Bach e Palestrina e dona de uma coleção de cem vinis (mas sem vitrola em casa). "Eu não sei viver sem som. Não ligo para ver TV, minha companhia é a música, mais até do que a literatura. É algo que me comove, estimula e sensibiliza." Dona de uma memória espantosa, ela é capaz de relembrar e cantar as árias de O Mambembe: Burleta em três atos e doze quadros, de Arthur Azevedo, que encenou, na companhia de colegas como Renato Consorte e dirigida por Gianni Ratto, na comemoração dos 50 anos do Teatro Municipal do Rio - ou seja, há 50 anos. "Cantar é uma sensação espantosa", diz a atriz, que se considera - e é, de fato - "afinadinha". Em 1989, voltou a cantar em cena, em Suburbano Coração, de Chico Buarque e Naum Alves de Souza (também o diretor), cujo elenco tinha ainda Otávio Augusto, Ana Lúcia Torre e Ivone Hoffmann. A montagem durou um ano, e foi abortada por culpa do Plano Collor.Ao falar de sua peça atualmente em cartaz, a qual defende com imenso entusiasmo, Fernanda chega a perder as palavras. Lembra com carinho a temporada gratuita em cidades pobres da Baixada Fluminense, na qual teve a oportunidade de se apresentar para pessoas a quem teatro era algo muito distante: empregadas domésticas, pequenos comerciantes, e também professores, donas de casa. Lá, deparou-se com um senhor de 94 anos que era o primeiro membro de sua família a assistir a uma peça. Era gente que não se cansava de agradecer sua presença - o que, de certa forma, a constrangia. "Eles agradeciam e eu sentia vergonha, como cidadã. Sem demagogia, a vontade era de pedir desculpas por não ter ido antes."Em São Paulo, a plateia é diferente, mas não menos surpreendente. Como na Baixada, o público participa ativamente da conversa/debate que se segue. "Parece cabotinismo falar isso, mas é uma adesão tão calorosa, amorosa, entregue... A plateia de São Paulo é alimentada, iniciada, mais estruturada, mas também mais exigente." Machline ainda não assistiu a Viver Sem Tempos Mortos, mas ouviu de sua mãe, que conferiu a montagem em São Paulo, um relato emocionado.O curioso é que, como o amigo, Fernanda teve dificuldade de obter patrocínio (por fim, conseguiu dois, da Oi e da Mapfre). Quem pensa que seu nome é garantia de liberação de dinheiro na hora está muito enganado, avisa a atriz, que vê com ressalvas o novo projeto da Lei Rouanet. Sobre o assunto, ela começa dizendo que não quer se posicionar, uma vez que representantes da classe já estão dando suas contribuições ao debate. Acaba por desabafar: "Quem virou consagrado é marginalizado. É um estigma, como uma lepra. É como aquela frase do Jobim: no Brasil, sucesso é insulto. Perto dos 80 anos de idade e 60 de palco, algum valor a vida deve ter me dado. Mas pensam que não preciso de patrocínio."

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